Analise crítica sobre o livro: Relatos de um Peregrino Russo, por Bruno Redígolo

A busca por respostas diante das inquietações inerentes ao coração humano é uma aspiração que possivelmente não termina nem se esgota na imanência desta vida. É justamente este inquietante processo de busca que perpassa todo o livro, instrumento desta analise: Relatos de um peregrino russo.

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Reflexão sobre Lc 15,11-32 – Parábola do Pai Misericordioso

Seu Pai viu-o e encheu-se de compaixão.

Queridos e queridas jovens, paz e bem.

Jesus se utiliza de parábolas para mostrar como é o Reino de Deus. E o que é parábola? Porque Jesus ensinava, ou ensina através de parábolas?

Jesus se utiliza de parábolas por elas serem de fácil entendimento para todos, inclusive para o povo simples e sem cultura, pois relatam cenas do cotidiano, no entanto elas nos mostram um mundo novo, uma nova forma de se viver, nos leva ao entendimento do que Jesus quer nos ensinar por consequência no leva a conversão. Pelas parábolas de Jesus, ficamos conhecendo Deus e como ele age em relação conosco.

A parábola do filho pródigo, que eu prefiro nomeá-la de parábola do pai misericordioso; é a mais conhecida, a mais lida, e a mais linda de todas que o evangelho contém, poderíamos dizer que é o núcleo do evangelho de Jesus a parábola do Pai misericordioso. Talvez esta parábola nem precisasse de comentários, porque ela é tão profunda, bela, simples, dramática, comovente, que bastaria ouvi-la ou lê-la com o coração receptivo para nos darmos conta do imenso amor de Deus, um amor incompreensível que Deus tem para conosco.

Para melhor compreender essa parábola, é preciso contextualiza-la. No início do da narração do capítulo 15, Lucas nos diz que “Todos os publicanos e pecadores aproximavam-se para ouvi-lo. Os fariseus e os escribas, porém, murmuravam: “Esse homem recebe os pecadores e come com eles!”contou-lhes, então, esta parábola:” (Lc 15,2) aqui se seguem três parábolas: a ovelha perdida, a dracma perdida, e a do Pai misericordioso. Fiquemos com a terceira que o objeto de nossa reflexão.

Temos aqui quatro personagens: o filho mais novo, o Pai, o filho mais velho e os servos que podemos dividir em dois tipos de servos, que explicarei ao final da reflexão. Podemos analisar a parábola por diversos vieses, vamos refletir sobre o viés da retribuição, pois esta é a que mais se aproxima do nosso modo de agir para com as pessoas que erram, que se desviam do caminho que Jesus nos propõe. Tanto no tempo de Jesus como nos nossos dias, pois acreditamos sempre em algum tipo de recompensa: se praticamos o mal com mal devemos ser pagos, e se praticamos o bem, com bem devemos ser recompensados. Jesus através desta, e de outras tantas, parábolas nos mostra que não é assim o agir de Deus para com os pecadores, os marginalizados, os excluídos da sociedade.

Passa-nos despercebida a misericórdia do Pai já no início da parábola, quando o filho mais novo pede sua parte na herança; o livro do Dt 21,18  determina que se houver um filho rebelde e indócil, que não obedece aos pais, é devasso e beberrão, todos os homens da cidade o apedrejarão até que morra.  Porém o Pai não faz isso, não denuncia, não questiona o filho mais novo do por que desta atitude, se brigou com o irmão, se o modo que o Pai lhe trata não lhe agradava, se quer ter uma vida independente. Não, o Pai não questiona, simplesmente entrega a parte que lhe cabe da herança. Perceba que o Pai já transgride a Lei da herança, e age com misericórdia.

O filho mais novo vai embora sem dizer seu rumo, e suas intenções. Longe do Pai  ele vive como quer, da maneira como acredita ser a verdadeira vida, gasta tudo até que fique sem nada, não tendo como sobreviver, procura trabalho, mas ninguém lhe dá, até que consegue um dos trabalhos mais degradantes para um judeu: cuidar de porcos,  notamos que ele está muito longe de casa, pois não se podia criar porcos em Israel, ele está, muito provavelmente, em terras pagãs; ele é tão humilhado que chega ao ponto de passar fome pois nem a comida dos porcos lhe davam. Quando então “cai em si” e pensa em retornar a casa do Pai, pois nem os empregados eram tratados de forma tão humilhante, e lá havia fartura.  Na casa do Pai sempre há fatura.

Considerando que o Pai misericordioso é Deus Pai,  podemos fazer uma analogia do que acontece quando nos afastamos de Deus: adoramos outros deuses – no caso o patrão –  nos humilhamos, perdemos a nossa dignidade humana criada a imagem e semelhança de Deus – cuidar de porcos. Corrompemo-nos, somos injustos, por vezes violentos, acabamos na solidão, abandonados a própria sorte que escolhemos.

Ao chegar ao fundo do poço o filho mais novo se lembra do Pai, e pensa em voltar, e o faz, não tem mais nada a perder, mas não se trata de arrependimento, ainda, ele quer voltar para matar a fome, como diz o ditado popular, se não vamos por amor, vamos pela dor. A dor da fome é que incentiva o filho mais novo a retornar a casa do Pai. Cabe aqui uma pergunta: por que procuramos Deus Pai? Por retribuição, por “fome” de alcançar uma “graça” e uma vez alcançada – saciados –  o abandonamos novamente? Ou procuramos o Pai para adora-lo, louva-lo, porque sabemos que Ele nos ama? E reconhecemos esse amor, amando os outros como Ele mesmo nos ama, e saímos ao encontro dos excluídos, dos marginalizados, dos esquecidos, dos explorados, dos injustiçados, dos sem teto, dos sem nada, para ama-los como Ele nos ama?

Quando o filho mais novo ainda está a caminho o Pai sai ao seu encontro, é um Pai em saída, isso nos faz lembrar as palavras do Papa Francisco que pede uma Igreja em saída, que vai ao encontro do filho “morto” que agora retorno para a “vida”. O filho inicia seu pedido de perdão, mas o Pai não o deixa terminar, sua felicidade é imensa, incompreensível, que manda vestir e calçar, ou seja: devolve a dignidade perdida, põe lhe o anel no dedo, mostrando a sua importância dentro daquela casa, manda preparar o “novilho cevado”, não é um novilho qualquer, é “o” novilho cevado, ou seja: um que foi especialmente preparado para uma festa, um banquete. Pois este “filho estava morto e tornou a viver” (Lc 15,32). Pode se dizer que Jesus não vai a busca dos que estão arrependidos, mas dos que estão perdidos, por maior que seja o tamanho do pecado cometido, Jesus vai ao encontro, oferece seu amor gratuito e ilimitado, oferece, também, o perdão de Deus que é totalmente gratuito e infinito, que tem o poder de fazer nascer para uma nova e verdadeira vida, uma vida com abundância (cf Jo 10,10), desde que cada um reconheça este amor tão grande que é incompreensível para as pessoas.

Porém enquanto o Pai, o filho mais novo e alguns servos celebram a vida, o filho mais velho retorna do campo onde trabalha para o Pai, ouve músicas e danças, e pergunta a um dos servos o que está acontecendo, este, que talvez também não compreenda a atitude do Pai, diz com certa ironia: “É teu irmão que voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque recuperou a saúde”. (Lc 15,27) O servo simplesmente cita o novilho cevado e diz que o irmão recuperou a saúde, de maneira muito simplória, não se nota alegria no falar do servo. Neste momento o filho mais velho encoleriza-se, fica cego de raiva, não quer entrar em casa. O Pai, mais uma vez sai ao encontro do filho, desta vez do mais velho; este não quer ouvir o Pai, acusa-o de ser avarento, uma vez que nunca lhe ofereceu ao menos um cabrito, e para o filho devasso, que “devorou todos teus bens com prostitutas e para ele matas o novilho cevado”. (Lc 15,30) O filho mais velho não vê a atitude misericordiosa do Pai, pensa apenas na retribuição e não na graça, não se alegra com a volta do irmão, sua mente está voltada para o novilho gordo e no cabrito que nunca lhe foi oferecido. O texto diz “ficou com muita raiva” (Lc 15,28), é um contra ponto com o que o Pai diz “encheu-se de compaixão” ((Lc15,20). A raiva o cega e o impede de ver o bem, seus olhos enxergam apenas o pecado do irmão e não o bem que o Pai está fazendo. O Pai justifica ao dizer que tudo o que é dele está à disposição do filho que sempre esteve com ele, e completa dizendo que “era preciso que festejemos, pois este teu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”(Lc 15,32). O Pai reconhece que o patrimônio pertence ao filho mais velho, mas pede que ele mude a mentalidade, reconheça a graça e não a retribuição, pagar o mal com o bem.

A parábola não relata qual a atitude do filho mais velho, se ele acolheu a palavra do Pai, se foi dar as boas vindas ao irmão, ou se resolveu pedir sua parte da herança e partir também. Tudo são escolhas entre o bem e o mal. A parábola é aberta, deixa-nos pensar também em escolhas, qual delas fazemos?

Disse no inicio da reflexão que existem quatro personagens, os três primeiros são evidentes, é preciso uma leitura mais atenta para perceber o outro, ou outros personagens, são os servos. Poderíamos nomeá-los servos da misericórdia do Pai. Quando o filho mais novo é “reencontrado” o Pai manda vesti-lo com a “melhor túnica”, calça-o, põe-lhe o anel no dedo, mata o novilho gordo, os servos prontamente o atendem e participam da festa da misericórdia também.

Porém, há um deles que parece que não concorda com o que está acontecendo, é o servo que dá a notícia do retorno do irmão ao filho mais velho, a partir dai desencadeia o que já comentamos. Nas palavras do servo interrogado pelo filho mais velho há uma limitação: “é seu irmão que voltou e sei Pai matou o novilho cevado, porque ele recuperou a saúde” (Lc 15,27), nestas palavras transparece um juízo que o servo faz, reduz a misericórdia do Pai a uma injustiça contra o filho mais velho. Talvez tenha ficado irado também porque coube a ele matar o novilho cevado, imagino. Também aqui ele raciocina segundo a lógica da retribuição é não da graça.

Podemos fazer mais uma analogia aqui, se pondo no lugar dos servos. Aos servos cabe apenas o papel de executar as ordens do Pai misericordioso sem questiona-lo, não se é juiz, mas servente, executores das ordens dadas, colaboradores para restituir a dignidade de quem a perdeu, é esse o trabalho dos servos da misericórdia.

Ao final desta reflexão cabem algumas questões:

  1. Qual dos quatro ou cinco personagens nos identificamos: com filho mais novo, que abandona o Pai, mas só retorna por outros interesses e não arrependimento (fome)? Com filho mais velho que não reconhece a misericórdia do pai, não consegue enxergar o bem, apenas o pecado nos outros? Dos servos que atendem prontamente a solicitação do Pai e participam da festa da vida, ou com o servo inconformado com a maneira que o Pai trata o filho mais novo e também não enxerga a misericórdia e faz pior, noticia maldosamente as atitudes benevolentes do Pai? Ou nos identificamos com o Pai misericordioso, sempre acolhendo, melhor dizendo, sempre indo ao encontro daqueles, daquelas que estão perdidas, esquecidas, excluídas, exploradas, e levamos uma palavra de alívio, consolo, demonstramos um olhar caridoso, devolvendo-lhes a dignidade humana, e o amor próprio?
  2. Até que ponto estamos dispostos a sair de nós mesmos e seguir as palavras do Papa Francisco que quer uma Igreja em saída, e não uma que fique presa à sacristia?
  3. Quando de fato deixaremos de julgar as atitudes alheias ao invés de lhes dar a mão e ajuda-las a se levantar da queda? Jesus já recomendava: “Não julgueis para não serdes julgados” (Mt 7,1)

Resenha do livro: MONSIGNORE Jack-Alain Léger, por Bruno Redígolo

O livro MONSIGNORE de Jack-Alain Léger retrata situações divergentes entre si que de tempo em tempo aparece na vida de alguém. De um lado, o garoto John, nascido e criado na periferia estadunidense sem grandes perspectivas de futuro, do outro lado o mesmo John, mas agora como cardeal, ou como o livro prefere: monsenhor, monsenhor Flaherty, um dos mais influentes bispos da cúria romana de sua época. Este paradoxo é intrigante. O autor abusa de avanços e retornos para contar a história do personagem central da trama e esmiuçar os detalhes de como tudo foi possível.

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História da Igreja Antiga: esboço geral e sucinto da evangelização das primeiras comunidades cristãs

INTRODUÇÃO

A presente monografia da disciplina História da Igreja Antiga tem a pretensão de traçar um esboço geral e sucinto da evangelização das primeiras comunidades cristãs.

Mostraremos o momento histórico do evento Jesus de Nazaré e a área geográfica em que o cristianismo se fez divulgar até o ano 476, quando, para alguns historiadores, se finda a Idade Antiga com a queda do Império Romano do Ocidente e inicia-se a Idade Média.

Para este trabalho se faz necessário mostrar de que forma se deu o anúncio do Evangelho e a forma como a Igreja se organizou, bem como ela própria divulgou a fé em Jesus Cristo aos outros povos ditos pagãos.

É de se notar que muitas são as variáveis ao se pesquisar sobre, não só um período tão longínquo da História, mas, sobretudo, por não haverem muitos registros de época dos feitos dos primeiros cristãos, portanto, para este trabalho, recolhemos fontes de referências restritas que estão elencadas na seção própria.

Porém, estudar a História da Igreja é “estudar a ação do Espírito, que está acima de puras conjunturas ou de maquinações de poder. Com tantos anos de vida, a Igreja católica é testemunha disso.”[1] A História da Igreja “é vida. Vida de pessoas concretas e limitadas, mas também da riqueza do Espírito manifestando-se na beleza das pessoas.”[2] No entanto este trabalho é limitado, restrito, pelas limitações do autor e da própria proposta, tem apenas a intenção de dar uma rapidíssima pincelada sobre alguns fatos mais importantes de todos aqueles que nos precederam na fé em Cristo Ressuscitado.

O Conteúdo Geográfico do Império Romano

No ano 1 de nossa era, o Império Romano é que dominava grande parte do mundo até então conhecido. Os limites se estendiam por quase todo o mar Mediterrâneo, que para os romanos tinha o nome de Mare Nostrum (nosso mar), chegando até a Bretanha. “eram três milhões de quilômetros quadrados de território e uma população superior da 50 milhões de habitantes”[4].  Foram extremamente violentos com os conquistados, aniquilavam os que eram contra a sua política e forma de dominação, a pax romana não era propriamente uma paz em seu sentido pleno, era mais uma paz onde o dominador impunha sua política, e os dominados a aceitavam.

Eram nomeados governadores para as diversas províncias e eventualmente, em algumas, o imperador nomeava um líder da própria terra dominada, ou um “conselho de anciões”, para resolverem problemas menores, e estes em conluio com o poder central, exploravam o povo, através de altos impostos, cerca de 25% da colheita eram impostos pagos aos romanos, mais a corveia que era para a alimentação dos soldados romanos e seus cavalos, além do pedágio sobre qualquer transporte de mercadorias. Os impostos que o povo pagava ao Templo equivalia a 10% da colheita, 1% para os pobres e a cada sete anos a família tinha que pagar o equivalente a um ano de trabalho para o templo. Era de fato um fardo muito pesado para o povo já tão explorado.

Neste contexto nasce Jesus de Nazaré. Nazaré é um pequenino vilarejo perdido nas terras de Israel. Ele provocará uma profunda alteração no modo de viver e de crer em Deus único. Após sua condenação e morte por volta do ano 33, a Igreja inicia-se no dia de Pentecostes.

O Anúncio do Evangelho e a Igreja.

As primeiras comunidades, obviamente, nasceram na Palestina, junto ao povo judeu, pois Jesus se coloca como o Messias prometido e tão esperado, oficialmente, a primeira comunidade cristã nasce em Jerusalém (At 2,41-42 e At 4,32). Isto provoca a ira dos lideres locais e inicia-se a perseguição aos seguidores desta nova forma de fé; os apóstolos são presos, o diácono Estevão é morto, e “depuseram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo” (At 7,58).

Em torno do ano 38 Saulo se converte ao cristianismo e se transforma no maior apóstolo da Igreja primitiva. Evangelizou desde a sua conversão até o dia de seu martírio, por volta do ano 67.

Paulo assume como missão levar o Evangelho aos gentios e vai de Jerusalém a Roma, da Igreja Judaica à Igreja Universal, e ai começa a grande caminhada. Seu grande objetivo era:

  • Desatar a Igreja nascente dos laços do judaísmo
  • Tornar a Igreja universal: o Evangelho é salvação de todos
  • A fé é que salva e não a Lei judaica
  • A verdadeira liberdade é a liberdade dos Filhos de Deus.

 

Em suas pregações, Paulo quer provar aos judeus que Jesus é o Messias das Escrituras e aos pagãos procura mostrar que o verdadeiro e único Deus é Jesus Cristo. Com sua insistência em levar a Boa Nova aos gentios, Paulo é chamado a Jerusalém para explicar suas atitudes (At 15), este encontro com os outros discípulos fica conhecido como Concílio de Jerusalém, que ocorreu por volta do ano 49; fica decido que Pedro fica responsável pela evangelização dos judeus e Paulo se responsabiliza pela evangelização dos gentios e pagãos.

Os primeiros seguidores do Evangelho eram pobres e marginalizados, que descobriram nesta nova forma de crer em Deus, que havia um plano divino para eles, Deus sempre escolheu os mais pobres e excluídos, e os feitos de Jesus, indo ao encontro e acolhendo os marginalizados da sociedade judaica, corroboravam estes preditos dos profetas. Paulo percebe esta escolha rapidamente, e compreende que esta preferência divida serve também aos incircuncisos, pois estes eram desprezados pelos judeus piedosos e até mesmo pela própria comunidade cristã. A pergunta que não queria calar era: Pode um pagão converter-se ao cristianismo sem aceitar a antiga Lei Mosaica?  Para Paulo a resposta é sim, porque para ele via importantes desdobramentos a partir desta questão que são:

  • No plano conjugal, a predileção pela mulher no mundo machista;
  • No plano educacional, a predileção pela criança num mundo de adultos;
  • No plano da produção, a predileção pelos trabalhadores num mundo de patrões exploradores;
  • No plano da saúde, a predileção pelos doentes num mundo de sadios;
  • No plano da discriminação racial, a predileção pelos não judeus num mundo de judeus;
  • No plano da política internacional, a predileção pela periferia do sistema.

Com esta visão Paulo insiste que a salvação era para todos, circuncidados ou não, homens e mulheres, livres e escravos (cfe. Gl 3,28). Com efeito, os pagãos eram minoria no começo da Igreja, mas graças a Paulo, eles levaram o cristianismo ao mundo, enquanto a contribuição judaica teve pouca repercussão no crescimento da Igreja, talvez, se não fosse por Paulo, o cristianismo se limitaria a apenas uma seita dentro do judaísmo.

 

A Igreja e a evangelização dos povos

A evangelização expandiu-se rapidamente, até o Século II pode se encontrar cristãos no entorno do Mar Mediterrâneo, se olharmos com atenção um mapa da época com as Igrejas, vamos perceber que elas.

“Estão dispostas como um colar de pérolas ao longo da costa, de porto em                                   porto, de Azoto a Antioquia, passando por Jope, Sebaste, Cesaréia da                                         Palestina, Ptlomaida, Tiro e Sidônia… Na virada do Século I, a    Igreja toma seu                       segundo fôlego. Penetra no interior das t erras na Síria e na Ásia Menor.”                     (Hamman, 1997)

As principais causas da rápida expansão do cristianismo foram:

  • A atividade apostólica e missionária dos apóstolos;
  • A situação do povo pobre, que via no Cristianismo uma esperança;
  • Os peregrinos, os comerciantes, os viajantes que levavam e espalhavam pelo mundo a notícia do novo tipo de comunidade que havia surgido;
  • Com a destruição de Jerusalém no ano 70 D.C. os judeus foram obrigados a se espalhar pelo mundo (diáspora). Muitos deles já conheciam os fundamentos do cristianismo e começaram a formar comunidades aonde chegavam;
  • As comunidades iniciadas por Paulo;
  • A organização do Império Romano: estradas, cidades, províncias e dioceses que, na Igreja deram origem às capelas, paróquias e dioceses;
  • A originalidade do cristianismo, enquanto religião viva, fundada sobre a pessoa de Jesus Cristo e na Crença num só Deus, onde se procurava viver a igualdade entre as pessoas;
  • Diante da decadência ético-moral, havia o desejo de voltar à virtude e ao respeito e à vivência dos verdadeiros valores humanos; justamente o que o Evangelho propunha;
  • O respeito à dignidade da mulher, das crianças, dos pobres e doentes.[5]

Com esta rápida difusão do cristianismo, os cristãos começaram a ser perseguido pelo Império Romano, especialmente no período de Nero, mas outros imperadores também condenam os cristãos, tais como Domiciano, Trajano, os Severos foram os mais hostis, Caracala foi cruel, Heliogábalo, Décio, Valeriano, Diocleciano. Inúmeros foram os mártires, e as crueldades contra os cristãos perduram até o ano 313, embora existam períodos de relativa calmaria. Muitos são os mártires, mas muitos são os apostatas, que por não terem a fé tão firme a negavam para salvar suas próprias vidas.

Mas nem mesmo com as terríveis perseguições e acusações os cristãos esmorecem, Tertuliano vai dizer que “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, isto mostra a força e a penetração do Evangelho junto aos povos do Império Romano.  Embora dentro da própria igreja comecem a surgir as heresias, e foram várias nos primeiros séculos, as mais destacadas foram o Arianismo, o Gnosticismo e o Monofisismo, o primeiro defendia que Jesus Cristo não era Deus, ou Filho de Deus, era apenas uma criatura privilegiada entre todas as outras, desta heresia surgiram outras tantas variantes. O Gnosticismo “é uma ciência religiosa, um modo de conhecimento superior” adquirido por “um conhecimento direto, instintivo, total, beatificante dos angustiantes problemas da metafísica”. Já o monofisismo ensinava que em Jesus Cristo só há a natureza divina, ou seja ele não teria a natureza humana também. Esta heresia foi derrubada no 4º Concílio Ecumênico na cidade de Calcedônia.

O ano de 313 é decisivo para a Igreja, é neste ano que o Imperador Constantino proclama o Edito de Milão (ou da Tolerância), que concede aos cristãos igualdade de direitos com as outras religiões. A partir daqui a Igreja recebe privilégios tais como:

  • Construção de igrejas (Nicomédia, Antioquia, Jerusalém (a igreja do Santo Sepulcro), Belém (a igreja da Natividade), Roma (basílica do Latrão e outras);
  • A dispensa dos impostos e da prestação dos serviços públicos para os clérigos;
  • A equiparação dos bispos com altos funcionários;
  • A doação de propriedades de terras;
  • Em 321 é introduzido o domingo cristão.[6]

Com a Igreja recebendo as benesses do Império, tudo fica mais fácil, e a difusão do Evangelho se faz mais presente, mas mesmo assim ela continua a sofre internamente com as heresias, então surgem os padres apologetas, que usando de sua inteligência e intelectualidade combatem as heresias e as dúvidas que surgiam tanto interna como   externamente à Igreja. Mesmo assim ela cresce e se espalha, se tornará mais forte ainda após o ano de 391 quando o imperador Teodósio proíbe todo culto pagão, na verdade ele torna o cristianismo a religião oficial do Império, e com isso, haverá muitos batizados, mas poucas conversões de fato, muitos destes “novos cristãos” apenas aceitam o batismo para agradarem ao imperador ou não serem, agora, perseguidos. Com isso a Igreja vai se enriquecendo e se afastando dos princípios básicos do cristianismo, que era a fraternidade, a partilha, a vida em comunidade, acolhimento ao pobre e excluído. Muitos bispos começam a enriquecer.

Deste distanciamento surgem os que querem viver a “simplicidade e a pobreza evangélicas”, são os chamados monges, os primeiros foram os anacoretas ou eremitas, que “iam para o deserto viver sozinhos, rezar, meditar e fazer penitência”.  Em torno dos anos 400 eles começam a se organizar e vivem em pequenos grupos. O próprio São Jerônimo viveu durante 20 anos numa caverna.

O fim do Império Romano do Ocidente

Entre os anos de 410 e 476 o Império Romano agoniza, as legiões romanas já não conseguem deter o avanço dos bárbaros e vão perdendo territórios inteiros para os godos, os alanos, os vândalos, suevos, burgúndios, mas quem estava conquistando mais territórios eram os hunos, este após serem derrotados nos “campos catalâunicos”  regressam à Hungria, mas no ano 452 chegam a Roma, o Papa Leão vai ao encontro de Átila e consegue que este não invada Roma, porém no ano de 476, o último imperador romano, Rômulo Augústulo é derrotado pelo germano Odroaco , isto representa o fim do Império Romano do Ocidente. Mas não o fim da Igreja, pois muitos dos povos ditos “bárbaros já conheciam o cristianismo e tinham grande respeito pelos bispos”. Na verdade, após toda confusão que se criou com a queda do império, quem ajudou a reorganizar a vida do povo foi a Igreja já fortemente estabelecida, a partir de então ela fica mais poderosa ainda, sendo praticamente o único poder constituído, só deixando pouco a pouco o poder tempos mais tarde.

Conclusão

Ao olharmos o nascimento da Igreja, desta distância, vemos os altos e baixos, por certo mais altos do que baixos, poderíamos ter um olhar de muitas críticas, mas é preciso contextualizar este período de cinco séculos que foram decisivos para a Igreja e para o cristianismo. Não fosse o testemunho dos apóstolos, especialmente de Paulo de Tarso, não fosse a fé que gera a esperança dos mártires, não fosse a inteligência dos padres apologetas, não fosse a ação do Espírito Santo nos Padres Patrísticos, a Igreja e o Evangelho não teriam chegado até nós atravessando vinte e um séculos de revesses e benesses, não teríamos tomado conhecimento da Economia da Salvação. Temos uma dívida impagável para com estas irmãs e estes irmãos que nos precederam e nos transmitiram a fé, e muitos deles pagaram com a própria vida, com o próprio sangue, para que o Evangelho chegasse até nós.

Gamaliel profetizou, mesmo não tendo ciência disto, que a Igreja prosperaria, se viesse de Deus (cfe  At 5,39), e assim se concretizou sua profecia, a Igreja é de Deus, por isso não sucumbiu aos homens, nem mesmo àqueles que são responsáveis por ela, e por interesses outros não a respeitaram como deveria ser respeitada.

A Igreja seguirá seu percurso como barca no mar, ora revolto, ora calmo, mas temos certeza que atingirá seu porto seguro no fim dos tempos.

REFERÊNCIAS

 

Bíblia de Jerusalém. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. São Paulo: Paulus, 2002.

Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude.  História da Igreja I – Desde as Primeiras Comunidades. São Paulo : CCJ Gráfica e Editóra, 1995.

Fröhlich, Roland. Curso Básico de História da Igreja. 7ª. São Paulo : Paulus, 2010.

Hamman, Adalbert-G.  A Vida Cotidiana dos Primeiros Cristãos (95 – 197). São Paulo : Paulus, 1997.

Pierrard, Pierre. História da Igreja. 7ª. São Paulo: Paulus, 1982.

História Eclesiática – Eusébio de Cesáreia. 2ª. São Paulo: Paulus,2008.

 

Mapa da página 2 Disponível  em <http://estudarabibliaevida.blogspot.com.br/2011/01/contexto-biblico-historico-e-geografico.html>   acesso em 08/10/2012

[1] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pg 4

[2] Idem

[3] Disponível em < http://estudarabibliaevida.blogspot.com.br/2011/01/contexto-biblico-historico-e-geografico.html>   acesso em 08/10/2012

[4] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pg. 10

[5] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pgs 16/17

[6] (Fröhlich, 2010) pg 32

Resenha do Livro Mistagogia Hoje: o resgate da experiência mistagógica dos primeiros séculos da Igreja para a evangelização e catequese atuais de autoria de Rosemary Fernandes da Costa. São Paulo: Paulus, 2014.

Introdução

 

O livro nasce de uma principal inquietação da autora que pode ser resumida em: como falar de Deus aos homens e mulheres dos dias atuais para que compreendam a Revelação e como isso pode influenciar em suas vidas. Ela encontra a resposta na “experiência de evangelização dos primeiros séculos da Igreja nascente”, mais especificamente na “orientação dos Padres da Igreja” que é a Mistagogia, ou seja: a pedagogia do Mistério.

Análise, contexto, experiência, prática.

Para a autora é na catequese mistagógica que se encontra “uma fonte fecunda da Igreja para a ação evangelizadora de todos os tempos”.  Com isso ela sugere pistas para impulsionar respostas pastorais-pedagógicas e renovar o serviço da evangelização, que é a tarefa da Igreja.

Na elaboração do texto do livro vai sendo traçado uma linha que se inicia com a análise da evangelização nos dias de hoje (capítulo I) onde se detecta os principais problemas para a transmissão da fé no mundo atual; porém não se apoia apenas nos documentos da Igreja e autores atuais, ela vai mais além à busca de uma nova maneira de evangelizar a qual dá o nome de “evangelizar é a experiência ou o testemunho que cada batizado deve dar para a evangelização”, e vai buscar nas palavras do Papa Francisco uma forte exortação a todos quando ele diz: “ evangelizar é a missão da Igreja e não apenas de alguns, mas a minha, a sua, a nossa missão” (p. 23). Assim fica sinalizado a importância da evangelização como obrigação, mais, como missão de cada batizado, porém fica a pergunta: “ a fé supõe uma pedagogia própria?”.

A resposta a autora encontra na experiência catecumenal da Igreja primitiva, especificamente nos Séculos III e IV; esse é o tema do Capítulo II, onde vai se elaborando uma pedagogia da fé, que, segundo, a autora deve ser mistagógica pois ela

“instaura uma pedagogia própria e especial na        evangelização, inspirada na pedagogia divina, atuando desde o momento da                            acolhida, como durante todo o processo de acompanhamento de uma pessoa que adere à fé cristã.”

Com isso há um acompanhamento total do catecúmeno desde a iniciação à fé, passando pela sua inserção na comunidade, tendo como  grande desafio não só iniciar a pessoa na fé, mas acompanhar em toda a sua trajetória do caminhar cristão.

A partir daí a autora vai justificando a escolha de uma evangelização mistagógica, inclusive com uma pequena apresentação do histórico da Igreja nos Séculos III e IV.  O Capítulo II é o núcleo central do livro, onde o tema é mais longamente desenvolvido e explanado, tratando de tópicos com muitos detalhes, como exemplo podemos citar a apresentação que é feita de Jesus como o primeiro mistagogo. Mostra a “transformação” que o termo pedagogia vai sofrendo ao longo do tempo; comenta a história da salvação, passa pela evangelização apostólica e se encaminha para o catecumenato primitivo e sua evolução. O texto segue evoluindo até chegar a tópicos importantes como a relação entre a revelação divina e a antropologia, a espiritualidade e a ética, e, principalmente a pessoa e a comunidade de fé.

No Capítulo III a autora propõe resgatar “alguns aspectos importantes já presentes na experiência mistagógica da Igreja dos primeiros séculos que podem iluminar a evangelização atual.” Isso porque Rosemary acredita que estamos vivendo um tempo de crise da fé, que inevitavelmente enfraquece “o processo de evangelização e de transmissão da fé cristã.”

A alegação para se utilizar um método mistagógico é de que ele é capaz de “reorientar a ação evangelizadora à luz da experiência tão inspiradora da Igreja” nos Séculos III e IV, bem como esse processo se faz presente no RICA como resultado do Concílio Vaticano II.

Quando o capítulo III no item 2, que trata das “contribuições da mistagogia para a evangelização”, são elencados nove tópicos como “resgate da experiência mistagógica para a evangelização atual”. O tópico que nos parece mais importante é o que trata do “anúncio querigmático como fonte de ardor e renovação”, pois tudo o que se refere a evangelização tem seu princípio no Kerigma  e este teve seu grande impulso missionário em Pentecostes para que o testemunho da ressurreição fosse anunciado a todos indistintamente, no entanto, segundo a autora, no processo de evangelização é preciso que se permita que o espírito e a presença do Cristo Vivo inunde os corações como o fez com a Igreja primitiva. Essa comunhão com o Espírito é a fonte da força transformadora da Palavra pronunciada, para que ela não seja vazia, mas que transmita uma profunda experiência da fé cristã, e que não se caia na tentação de transformar a evangelização em repetição doutrinal, mas que seja uma “abertura para a ação do Espírito na vida pessoal e comunitária”. No entanto essa ação do Espírito deve ser sentida primeiro nos agentes de evangelização, pois é necessária uma relação íntima com o inefável, só assim se conseguirá uma evangelização eficiente.

Na sequência são elencados outros tópicos que complementam o agir mistagógico na evangelização tais como: A pedagogia do mistério, a compreensão da fé como caminho, o papel do testemunho na dinâmica mistagógica, a concepção de transmissão da fé, um encontro de liberdades, as comunidades de vida, a circularidade hermenêutica, o papel das mediações.  São tópicos que esclarecem mais detalhadamente cada etapa do processo de transmissão e manutenção da fé cristã àquele que aderiu ao seguimento de Jesus.

Conclusão

A autora deixa muito claro a missão de todo batizado: evangelizar em todo tempo e lugar independentemente  das condições e situações epocais, porém, sempre revisando esse processo de transmissão da fé. Diante dos desafios que se apresentam hoje para a evangelização, a autora propõe e insiste numa evangelização mistagógica nos moldes daquilo que a Igreja primitiva apresentava aos catecúmenos nos Séculos III e IV, “ idade de ouro” da Igreja, porém esse modelo de evangelização já está em consonância com o Concílio Vaticano II, mais especificamente com a Constituição Sacrosanctum Concilium.

Portanto o objetivo maior do livro “é fazer descobrir os sinais de Deus presentes na história e na vida, é redescobrir Deus na própria vida, na intimidade do coração.” e ainda fazer com que “o ardor da experiência pascal que aquecia o coração do grupo e os movia de dentro para fora a evangelizar. Por isso mesmo, cada discípulo tornava-se testemunha e, assim, um novo evangelizador.” Oxalá que se desse o mesmo aos catecúmenos dos dias de hoje para que eles/elas respondam ao querigma mudando de vida, iluminando a consciência, o entendimento, transformando-os “em uma nova vida, uma nova criatura”, vivenciando uma vida comunitária, fraterna e solidária. Abertos à ação do Espírito e a Graça de Deus para que cada um e cada uma realize o compromisso assumido no batismo, qual seja ser discípulo missionário de Jesus Cristo, e assim instalar o Reino aqui e agora.

REFERÊNCIAS:

COSTA, Rosemary Fernandes da. Mistagogia hoje: o resgate da experiência mistagógica dos primeiros séculos da Igreja para a evangelização e a catequese atuais. São Paulo: Paulus, 2014.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2012.

Olá, mundo!

Olá Mundo é uma ótima maneira de cumprimentar a todos que forem ler esse meu primeiro blog.

Há tempos que penso em usar esta ferramenta para divulgar alguns pensamentos que permeiam a minha mente, e sempre deixamos alguns projetos para depois em favor de alguns outros que acreditamos prioritários.

Então cabe a pergunta? por que agora escrever um blog e sobre o que se vai escrever aqui?

Em primeiro lugar resolvi por em prática o blog porque é uma ideia antiga, como já disse,  em segundo é por razões acadêmicas, ou seja, preciso de “quilometragem” para seguir na carreira acadêmica e isso se dá com inicialmente com um estágio.

Sobre o que será escrito aqui são ideias que se formam na minha cabeça e que gostaria de compartilhar com quem quiser lê-las. Inicialmente será sobre teologia e estudos teológicos, e religião de certa maneira,  mas certamente comentarei assuntos atuais do ponto de vista de um futuro teólogo.