A centralidade dos humildes da Terra: a propósito do discurso de Lula

Essa proposta do PT tem muito em comum com a Doutrina Social da Igreja, no que tange a responsabilidade dos empresários (de qualquer grandeza), o reconhecimento e justa remuneração pelo trabalho, seja no campo na cidade, braçal ou intelectual. E, obviamente, a educação igual para tod@s, independente da classe social, para que tod@s tenham as mesmas condições de crescimento e evolução como pessoa humana.

Leonardo Boff

Esta reflexão  foi motivada pelo discurso do ex-presidente Lula encerrando a abertura do 6º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores no dia 1º de junho de 2017 em Brasília. Faço-o como observador interessado no projeto social que o PT em parte realizou nos anos de seu governo. Não sou filiado ao partido, pois,  estimo que partido é sempre parte e tarefa do intelectual-pensador é tentar pensar o Todo e menos ocupar-se das partes que sempre são muitas, não raro, contraditórias. Como observador interessado que faço este comentário.

Três pontos me chamaram particularmente a atenção no discurso do ex-presidente Lula.

O primeiro deles é o caráter de classe do partido. Está no seu nome Partido do Trabalhadores. Quer dizer, propõe-se representar as grandes maiorias do país  compostas pela classe  dos trabalhadores do campo e da cidade, aqueles que dentro do sistema do capital vivem de salários (venda de sua força…

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La tolerancia necesaria y urgente

Intolerância: um mal do século, mas não só desse.

Leonardo Boff

Hoy en el mundo y también en Brasil impera mucha intolerancia frente a algunos partidos como el PT o los de base socialista y comunista. Intolerancia severa, a veces criminal, que algunas iglesias neopentecostales alimentan y propagan contra las religiones afrobrasileras, satanizándolas e incluso invadiendo y damnificando “terreiros”, como ocurrió en Bahía hace algunos años. Hay intolerancia que lleva a crímenes especialmente contra el grupo LGBT. Víctima de intolerancia es también el Papa Francisco, atacado y calumniado hasta con carteles pegados en los muros de Roma, porque se muestra misericordioso y acoge a todos, especialmente a los más marginalizados, cosa que los conservadores no están acostumbrados a ver en las figuras tradicionales de los papas.

El cristianismo de los orígenes, de la Tradición de Jesús histórico –contrariamente a la intolerancia de la Inquisición y de una visión meramente doctrinaria de la fe– era extremadamente tolerante. Jesús enseñó que debemos tolerar…

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Existe vida extra-terrestre?

Deus não pára nunca sua criação, o Universo é a sua casa.

Leonardo Boff

Cientistas da NASA descobriram uma estrela Trappist-1, distante 39 anos luz da Terra, com sete planetas rochosos, três dos quais com possibilidade de água e assim de vida. Esta descoberta recolocou a questão de eventual vida extra-terrestre. Façamos alguns reflexões sobre o tema, fundadas em nomes notáveis na área.

As ciências da Terra e os conhecimentos advindos da nova cosmologia nos habituaram a situar todas as questões no quadro da grande evolução cósmica. Tudo está em processo de gênese, condição para surgir a vida.

A vida é tida como a realidade mais complexa e misteriosa do universo. O fato é que há cerca de 3,8 bilhões de anos, num oceano ou num brejo primordial, sob a ação de tempestades inimagináveis de raios, de elementos cósmicos do próprio Sol em interação com a geoquímica da Terra, esta levou até à exaustão a complexidade das formas inanimadas. De repente, ultrapassou-se a barreira:…

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Onde está o poder hoje no mundo?

A mão invisível do mercado tem nome, aliás vários.veja alguns deles neste artigo

Leonardo Boff

Há um fato que deve preocupar todos os cidadãos do mundo: o deslocamento do poder dos Estados-nações para o lado do poder de uns poucos conglomerados financeiros que atuam a nível planetário, cujo poder é maior que qualquer Estado tomado individualmente. Estes de fato detém o poder real em todas as suas ramificações: financeira, politica, tecnológica, comercial, mediática e militar.

Este fato vem sendo estudado e acompanhado por um dos nossos melhores economistas, professor da pós-graduação de PUC-SP com larga experiência internacional: Ladislau Dowbor. Dois estudos de sua autoria resumem vasta literatura sobre o tema:”A rede do poder corporativo mundial”de 4/01/2012 (http:/www.dowbor.org/wp) e o mais recente de setembro de 2016: http://dowbor.org/2016/09/ladislau-dowbor-o-caótico-poder-dos-gigantes-financeiros-novembro-2015-16p.html//: “Governança corporativa: o caótico poder dos gigantes financeiros.”

É difícil resumir a mole de informações que se apresentam assustadoras. Dowbor sintetiza:

“O poder mundial realmente existente está em grande parte na mão de gigantes que…

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NÓS ERRAMOS: frei Betto

A autocrítica é sempre necessária, deve ser um exercício permanente para que não se cometa os mesmos enganos mais de uma vez. Tanto Frei Beto quanto Boff, acertaram na avaliação, do momento que a esquerda está passando. Esses tempos me faz lembrar o escritor George Orwel no livro Animal Farm. Triste, no mínimo.

Leonardo Boff

Reproduzo esse artigo de Frei Betto com o qual me identifico. É sincero e sabe manter o equilíbrio entre os acertos e os erros cometidos pelos governos Lula-Dilma.É uma auto-crítica necessária que deverá ser ainda feita por todo o partido do PT pois somente assim faz justiça à realidade, presta conta à população e começa a resgatar sua credibilidade abalada. Nunca fui filiado ao PT. Soube distinguir entre a causa que ele levava avante, dando centralidade aos pobres e o partido que servia de instrumento para esta causa. A mim pouco importa o partido que é sempre parte. Importou e continua a importar o destino dos esquecidos e feitos invisíveis que constituem um permanente desafio para a consciência ética .Para aqueles que se orientam pela mensagem de Jesus eles eles constituem um imperativo teológico, pois o Mestre os fez nossos juizes no termo final da história. Isso é o que…

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Como enfrentar o fundamentalismo

Leonardo Boff dispensa apresentações. Neste artigo fica muito claro como o relativismo pode ser usado de forma positiva.

Leonardo Boff

Atualmente em todo mundo, se verifica um aumento crescente do conservadorismo e de fenômenos fundamentalistas que se expressam pela homofobia, xenofobia, anti-feminismo, racismo e toda sorte de discriminações.

O fundamentalista está convencido de que a sua verdade é a única e que todos os demais ou são desviantes ou fora da verdade. Isso é recorrente nos programas televisivos das várias igrejas pentecostais, incluindo setores da Igreja Católica. Mas também no pensamento único de setores politicos. Pensam que só a verdade tem direito, a deles. O erro deve ser combatido. Eis a origem dos conflitos religosos e politicos. O fascimo começa com esse modo fechado de ver as coisas.

Como vamos enfrentar esse tipo de radicalismo? Além de muitas outras formas, creio que uma delas consiste no resgate do conceito bom do relativismo, palavra que muitos nem querem ouvir. Mas nele há muita verdade.

Ele deve ser pensado em duas direções:…

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Encontro Arendt 2016

Hannah Arendt - Brasil

por Thiago Dias da Silva

Participei há alguns dias da décima edição do “Encontro Arendt”, que este ano aconteceu em Goiânia, conjuntamente com o VI Colóquio Pensamento Político Contemporâneo. O evento contou com um número maior de participantes, permitindo aos habituais participantes dos dois eventos um panorama mais amplo do trabalho acadêmico sobre Hannah Arendt produzido em departamentos de filosofia na América Latina. A organização foi levada a cabo pelos professores Adriano Correia, Adriana Delbó, Carmelita Felício e por uma competente equipe de simpáticos alunos da UFG. O tema escolhido foi “a dignidade da política em tempos sombrios”.

A mesa de abertura ficou a cargo do professor Eduardo Jardim, que trouxe uma fala a respeito de similaridades entre Arendt e Amós Oz. Servindo-se dos recentes “Judas” e “Como curar um fanático”, Jardim pôs em destaque parte do “método” de elaboração de Oz que consiste em um esforço para se aproximar…

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Analise crítica sobre o livro: Relatos de um Peregrino Russo, por Bruno Redígolo

A busca por respostas diante das inquietações inerentes ao coração humano é uma aspiração que possivelmente não termina nem se esgota na imanência desta vida. É justamente este inquietante processo de busca que perpassa todo o livro, instrumento desta analise: Relatos de um peregrino russo.

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História da Igreja Antiga: esboço geral e sucinto da evangelização das primeiras comunidades cristãs

INTRODUÇÃO

A presente monografia da disciplina História da Igreja Antiga tem a pretensão de traçar um esboço geral e sucinto da evangelização das primeiras comunidades cristãs.

Mostraremos o momento histórico do evento Jesus de Nazaré e a área geográfica em que o cristianismo se fez divulgar até o ano 476, quando, para alguns historiadores, se finda a Idade Antiga com a queda do Império Romano do Ocidente e inicia-se a Idade Média.

Para este trabalho se faz necessário mostrar de que forma se deu o anúncio do Evangelho e a forma como a Igreja se organizou, bem como ela própria divulgou a fé em Jesus Cristo aos outros povos ditos pagãos.

É de se notar que muitas são as variáveis ao se pesquisar sobre, não só um período tão longínquo da História, mas, sobretudo, por não haverem muitos registros de época dos feitos dos primeiros cristãos, portanto, para este trabalho, recolhemos fontes de referências restritas que estão elencadas na seção própria.

Porém, estudar a História da Igreja é “estudar a ação do Espírito, que está acima de puras conjunturas ou de maquinações de poder. Com tantos anos de vida, a Igreja católica é testemunha disso.”[1] A História da Igreja “é vida. Vida de pessoas concretas e limitadas, mas também da riqueza do Espírito manifestando-se na beleza das pessoas.”[2] No entanto este trabalho é limitado, restrito, pelas limitações do autor e da própria proposta, tem apenas a intenção de dar uma rapidíssima pincelada sobre alguns fatos mais importantes de todos aqueles que nos precederam na fé em Cristo Ressuscitado.

O Conteúdo Geográfico do Império Romano

No ano 1 de nossa era, o Império Romano é que dominava grande parte do mundo até então conhecido. Os limites se estendiam por quase todo o mar Mediterrâneo, que para os romanos tinha o nome de Mare Nostrum (nosso mar), chegando até a Bretanha. “eram três milhões de quilômetros quadrados de território e uma população superior da 50 milhões de habitantes”[4].  Foram extremamente violentos com os conquistados, aniquilavam os que eram contra a sua política e forma de dominação, a pax romana não era propriamente uma paz em seu sentido pleno, era mais uma paz onde o dominador impunha sua política, e os dominados a aceitavam.

Eram nomeados governadores para as diversas províncias e eventualmente, em algumas, o imperador nomeava um líder da própria terra dominada, ou um “conselho de anciões”, para resolverem problemas menores, e estes em conluio com o poder central, exploravam o povo, através de altos impostos, cerca de 25% da colheita eram impostos pagos aos romanos, mais a corveia que era para a alimentação dos soldados romanos e seus cavalos, além do pedágio sobre qualquer transporte de mercadorias. Os impostos que o povo pagava ao Templo equivalia a 10% da colheita, 1% para os pobres e a cada sete anos a família tinha que pagar o equivalente a um ano de trabalho para o templo. Era de fato um fardo muito pesado para o povo já tão explorado.

Neste contexto nasce Jesus de Nazaré. Nazaré é um pequenino vilarejo perdido nas terras de Israel. Ele provocará uma profunda alteração no modo de viver e de crer em Deus único. Após sua condenação e morte por volta do ano 33, a Igreja inicia-se no dia de Pentecostes.

O Anúncio do Evangelho e a Igreja.

As primeiras comunidades, obviamente, nasceram na Palestina, junto ao povo judeu, pois Jesus se coloca como o Messias prometido e tão esperado, oficialmente, a primeira comunidade cristã nasce em Jerusalém (At 2,41-42 e At 4,32). Isto provoca a ira dos lideres locais e inicia-se a perseguição aos seguidores desta nova forma de fé; os apóstolos são presos, o diácono Estevão é morto, e “depuseram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo” (At 7,58).

Em torno do ano 38 Saulo se converte ao cristianismo e se transforma no maior apóstolo da Igreja primitiva. Evangelizou desde a sua conversão até o dia de seu martírio, por volta do ano 67.

Paulo assume como missão levar o Evangelho aos gentios e vai de Jerusalém a Roma, da Igreja Judaica à Igreja Universal, e ai começa a grande caminhada. Seu grande objetivo era:

  • Desatar a Igreja nascente dos laços do judaísmo
  • Tornar a Igreja universal: o Evangelho é salvação de todos
  • A fé é que salva e não a Lei judaica
  • A verdadeira liberdade é a liberdade dos Filhos de Deus.

 

Em suas pregações, Paulo quer provar aos judeus que Jesus é o Messias das Escrituras e aos pagãos procura mostrar que o verdadeiro e único Deus é Jesus Cristo. Com sua insistência em levar a Boa Nova aos gentios, Paulo é chamado a Jerusalém para explicar suas atitudes (At 15), este encontro com os outros discípulos fica conhecido como Concílio de Jerusalém, que ocorreu por volta do ano 49; fica decido que Pedro fica responsável pela evangelização dos judeus e Paulo se responsabiliza pela evangelização dos gentios e pagãos.

Os primeiros seguidores do Evangelho eram pobres e marginalizados, que descobriram nesta nova forma de crer em Deus, que havia um plano divino para eles, Deus sempre escolheu os mais pobres e excluídos, e os feitos de Jesus, indo ao encontro e acolhendo os marginalizados da sociedade judaica, corroboravam estes preditos dos profetas. Paulo percebe esta escolha rapidamente, e compreende que esta preferência divida serve também aos incircuncisos, pois estes eram desprezados pelos judeus piedosos e até mesmo pela própria comunidade cristã. A pergunta que não queria calar era: Pode um pagão converter-se ao cristianismo sem aceitar a antiga Lei Mosaica?  Para Paulo a resposta é sim, porque para ele via importantes desdobramentos a partir desta questão que são:

  • No plano conjugal, a predileção pela mulher no mundo machista;
  • No plano educacional, a predileção pela criança num mundo de adultos;
  • No plano da produção, a predileção pelos trabalhadores num mundo de patrões exploradores;
  • No plano da saúde, a predileção pelos doentes num mundo de sadios;
  • No plano da discriminação racial, a predileção pelos não judeus num mundo de judeus;
  • No plano da política internacional, a predileção pela periferia do sistema.

Com esta visão Paulo insiste que a salvação era para todos, circuncidados ou não, homens e mulheres, livres e escravos (cfe. Gl 3,28). Com efeito, os pagãos eram minoria no começo da Igreja, mas graças a Paulo, eles levaram o cristianismo ao mundo, enquanto a contribuição judaica teve pouca repercussão no crescimento da Igreja, talvez, se não fosse por Paulo, o cristianismo se limitaria a apenas uma seita dentro do judaísmo.

 

A Igreja e a evangelização dos povos

A evangelização expandiu-se rapidamente, até o Século II pode se encontrar cristãos no entorno do Mar Mediterrâneo, se olharmos com atenção um mapa da época com as Igrejas, vamos perceber que elas.

“Estão dispostas como um colar de pérolas ao longo da costa, de porto em                                   porto, de Azoto a Antioquia, passando por Jope, Sebaste, Cesaréia da                                         Palestina, Ptlomaida, Tiro e Sidônia… Na virada do Século I, a    Igreja toma seu                       segundo fôlego. Penetra no interior das t erras na Síria e na Ásia Menor.”                     (Hamman, 1997)

As principais causas da rápida expansão do cristianismo foram:

  • A atividade apostólica e missionária dos apóstolos;
  • A situação do povo pobre, que via no Cristianismo uma esperança;
  • Os peregrinos, os comerciantes, os viajantes que levavam e espalhavam pelo mundo a notícia do novo tipo de comunidade que havia surgido;
  • Com a destruição de Jerusalém no ano 70 D.C. os judeus foram obrigados a se espalhar pelo mundo (diáspora). Muitos deles já conheciam os fundamentos do cristianismo e começaram a formar comunidades aonde chegavam;
  • As comunidades iniciadas por Paulo;
  • A organização do Império Romano: estradas, cidades, províncias e dioceses que, na Igreja deram origem às capelas, paróquias e dioceses;
  • A originalidade do cristianismo, enquanto religião viva, fundada sobre a pessoa de Jesus Cristo e na Crença num só Deus, onde se procurava viver a igualdade entre as pessoas;
  • Diante da decadência ético-moral, havia o desejo de voltar à virtude e ao respeito e à vivência dos verdadeiros valores humanos; justamente o que o Evangelho propunha;
  • O respeito à dignidade da mulher, das crianças, dos pobres e doentes.[5]

Com esta rápida difusão do cristianismo, os cristãos começaram a ser perseguido pelo Império Romano, especialmente no período de Nero, mas outros imperadores também condenam os cristãos, tais como Domiciano, Trajano, os Severos foram os mais hostis, Caracala foi cruel, Heliogábalo, Décio, Valeriano, Diocleciano. Inúmeros foram os mártires, e as crueldades contra os cristãos perduram até o ano 313, embora existam períodos de relativa calmaria. Muitos são os mártires, mas muitos são os apostatas, que por não terem a fé tão firme a negavam para salvar suas próprias vidas.

Mas nem mesmo com as terríveis perseguições e acusações os cristãos esmorecem, Tertuliano vai dizer que “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, isto mostra a força e a penetração do Evangelho junto aos povos do Império Romano.  Embora dentro da própria igreja comecem a surgir as heresias, e foram várias nos primeiros séculos, as mais destacadas foram o Arianismo, o Gnosticismo e o Monofisismo, o primeiro defendia que Jesus Cristo não era Deus, ou Filho de Deus, era apenas uma criatura privilegiada entre todas as outras, desta heresia surgiram outras tantas variantes. O Gnosticismo “é uma ciência religiosa, um modo de conhecimento superior” adquirido por “um conhecimento direto, instintivo, total, beatificante dos angustiantes problemas da metafísica”. Já o monofisismo ensinava que em Jesus Cristo só há a natureza divina, ou seja ele não teria a natureza humana também. Esta heresia foi derrubada no 4º Concílio Ecumênico na cidade de Calcedônia.

O ano de 313 é decisivo para a Igreja, é neste ano que o Imperador Constantino proclama o Edito de Milão (ou da Tolerância), que concede aos cristãos igualdade de direitos com as outras religiões. A partir daqui a Igreja recebe privilégios tais como:

  • Construção de igrejas (Nicomédia, Antioquia, Jerusalém (a igreja do Santo Sepulcro), Belém (a igreja da Natividade), Roma (basílica do Latrão e outras);
  • A dispensa dos impostos e da prestação dos serviços públicos para os clérigos;
  • A equiparação dos bispos com altos funcionários;
  • A doação de propriedades de terras;
  • Em 321 é introduzido o domingo cristão.[6]

Com a Igreja recebendo as benesses do Império, tudo fica mais fácil, e a difusão do Evangelho se faz mais presente, mas mesmo assim ela continua a sofre internamente com as heresias, então surgem os padres apologetas, que usando de sua inteligência e intelectualidade combatem as heresias e as dúvidas que surgiam tanto interna como   externamente à Igreja. Mesmo assim ela cresce e se espalha, se tornará mais forte ainda após o ano de 391 quando o imperador Teodósio proíbe todo culto pagão, na verdade ele torna o cristianismo a religião oficial do Império, e com isso, haverá muitos batizados, mas poucas conversões de fato, muitos destes “novos cristãos” apenas aceitam o batismo para agradarem ao imperador ou não serem, agora, perseguidos. Com isso a Igreja vai se enriquecendo e se afastando dos princípios básicos do cristianismo, que era a fraternidade, a partilha, a vida em comunidade, acolhimento ao pobre e excluído. Muitos bispos começam a enriquecer.

Deste distanciamento surgem os que querem viver a “simplicidade e a pobreza evangélicas”, são os chamados monges, os primeiros foram os anacoretas ou eremitas, que “iam para o deserto viver sozinhos, rezar, meditar e fazer penitência”.  Em torno dos anos 400 eles começam a se organizar e vivem em pequenos grupos. O próprio São Jerônimo viveu durante 20 anos numa caverna.

O fim do Império Romano do Ocidente

Entre os anos de 410 e 476 o Império Romano agoniza, as legiões romanas já não conseguem deter o avanço dos bárbaros e vão perdendo territórios inteiros para os godos, os alanos, os vândalos, suevos, burgúndios, mas quem estava conquistando mais territórios eram os hunos, este após serem derrotados nos “campos catalâunicos”  regressam à Hungria, mas no ano 452 chegam a Roma, o Papa Leão vai ao encontro de Átila e consegue que este não invada Roma, porém no ano de 476, o último imperador romano, Rômulo Augústulo é derrotado pelo germano Odroaco , isto representa o fim do Império Romano do Ocidente. Mas não o fim da Igreja, pois muitos dos povos ditos “bárbaros já conheciam o cristianismo e tinham grande respeito pelos bispos”. Na verdade, após toda confusão que se criou com a queda do império, quem ajudou a reorganizar a vida do povo foi a Igreja já fortemente estabelecida, a partir de então ela fica mais poderosa ainda, sendo praticamente o único poder constituído, só deixando pouco a pouco o poder tempos mais tarde.

Conclusão

Ao olharmos o nascimento da Igreja, desta distância, vemos os altos e baixos, por certo mais altos do que baixos, poderíamos ter um olhar de muitas críticas, mas é preciso contextualizar este período de cinco séculos que foram decisivos para a Igreja e para o cristianismo. Não fosse o testemunho dos apóstolos, especialmente de Paulo de Tarso, não fosse a fé que gera a esperança dos mártires, não fosse a inteligência dos padres apologetas, não fosse a ação do Espírito Santo nos Padres Patrísticos, a Igreja e o Evangelho não teriam chegado até nós atravessando vinte e um séculos de revesses e benesses, não teríamos tomado conhecimento da Economia da Salvação. Temos uma dívida impagável para com estas irmãs e estes irmãos que nos precederam e nos transmitiram a fé, e muitos deles pagaram com a própria vida, com o próprio sangue, para que o Evangelho chegasse até nós.

Gamaliel profetizou, mesmo não tendo ciência disto, que a Igreja prosperaria, se viesse de Deus (cfe  At 5,39), e assim se concretizou sua profecia, a Igreja é de Deus, por isso não sucumbiu aos homens, nem mesmo àqueles que são responsáveis por ela, e por interesses outros não a respeitaram como deveria ser respeitada.

A Igreja seguirá seu percurso como barca no mar, ora revolto, ora calmo, mas temos certeza que atingirá seu porto seguro no fim dos tempos.

REFERÊNCIAS

 

Bíblia de Jerusalém. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. São Paulo: Paulus, 2002.

Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude.  História da Igreja I – Desde as Primeiras Comunidades. São Paulo : CCJ Gráfica e Editóra, 1995.

Fröhlich, Roland. Curso Básico de História da Igreja. 7ª. São Paulo : Paulus, 2010.

Hamman, Adalbert-G.  A Vida Cotidiana dos Primeiros Cristãos (95 – 197). São Paulo : Paulus, 1997.

Pierrard, Pierre. História da Igreja. 7ª. São Paulo: Paulus, 1982.

História Eclesiática – Eusébio de Cesáreia. 2ª. São Paulo: Paulus,2008.

 

Mapa da página 2 Disponível  em <http://estudarabibliaevida.blogspot.com.br/2011/01/contexto-biblico-historico-e-geografico.html>   acesso em 08/10/2012

[1] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pg 4

[2] Idem

[3] Disponível em < http://estudarabibliaevida.blogspot.com.br/2011/01/contexto-biblico-historico-e-geografico.html>   acesso em 08/10/2012

[4] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pg. 10

[5] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pgs 16/17

[6] (Fröhlich, 2010) pg 32