Amós: na sua época e nos dias de hoje.

PRÓLOGO  

 

Entre os profetas do Primeiro Testamento, Amós continua sendo um dos menos conhecidos do público cristão. É que o personagem incomoda um pouco, e sua mensagem ainda mais. Com efeito, os nove pequenos capítulos escritos com base em seus oráculos mostram-nos a imagem de um Deus que troveja, ruge e pune. Em suma, um Deus que reaviva as lembranças ruins de uma religião severa, e cuja imagem nos parece bem distante daquele Deus de ternura e de misericórdia revelado por outros profetas e, de modo particular, por Jesus de Nazaré.

 

No entanto, as palavras de Amós são dignas de atenção, justamente porque elas nos sacodem e nos obrigam a sair de nosso torpor. Amós é o primeiro de uma longa e rica linhagem de profetas que ousaram alçar a voz para denunciar o descaso de uma sociedade que acumulava riquezas à custa dos pobres. Ele também é duro quando se trata de denunciar o contra-senso de uma religião que não procura apoiar-se na prática do direito e da justiça. Seus apelos ardentes em favor do direito dos pobres encontraram notável eco nos atos e atitudes do profeta de Nazaré, pois, segundo ele, as práticas exteriores devem ser animadas pelo amor ao próximo e pela busca da justiça.

 

Atualidade de Amós

 

Se é verdade que a mensagem do profeta se dirige, em primeiro lugar, ao mundo do seu tempo, afigura-se também ela atual e significativa para as futuras gerações de fiéis.

O livro de Amós adquire, assim, um sentido sempre atual. O tema da justiça social, tão caro a esse profeta, não nos pode deixar indiferentes, quando tomamos consciência dos enormes problemas de todos quantos continuam sendo marginalizados por nossa sociedade desenvolvida e rica. Foi por causa de problemas dessa natureza que Amós se pôs a falar para o seu tempo. É por causa de problemas semelhantes que Amós continua a nos falar nos dias de hoje.

 

Deus falou: quem não profetizaria?

 

            Uma “belle époque” – mas para quem?

 

            Amós exerceu seu ministério em Israel ao tempo do rei Jeroboão II (787-747 a.C). Esse longo reinado foi um dos mais prósperos da história do reino do Norte. Após anos de enfrentamentos militares com Judá e as potencias vizinhas, Israel goza enfim de uma calma relativa. Graças ao comércio com a Arábia, a Fenícia e o mar Vermelho, e graças também as minas de ferro de Arabah, a riqueza do reino aumenta sensivelmente. As atividades têxteis e de tintura florescem. A população aumenta de forma considerável. Mas a estabilidade política e o desenvolvimento econômico do país não impedem o aparecimento de profundas tensões sociais. Assim, enquanto alguns se enriquecem muito e querem fazê-lo sempre mais, outros são praticamente condenados a ficarem cada dia mais pobres. Em plena prosperidade já se viam sinais de decadência social. Lentamente, o país desliza rumo ao abismo. A derrota é inevitável.

O livro de Amós evoca essa indiferença. Nele há palavras que se referiam aos tempos de prosperidade, palavras utilizadas por fiéis bem nutridos que dão graças a Deus pela abundância de seus bens, sem se darem conta de que ao seu lado surgia uma nova pobreza que faria ruir a “belle époque” em que viviam. Essa sociedade, caracterizada pela desigualdade, não nos soa como algo estranho. Não vivemos também nós numa grande indiferença diante da pobreza que aumenta a cada dia em nossa cidade, em nosso país?

Olhar sem enxergar a realidade é viver na ilusão. “Tudo está indo bem”, diziam os burgueses da cidade de Samaria, e assim também os de nossa época. Entre nós, restaurantes, cinemas, e shoppings estão cheios de gente…a dívida externa vai diminuindo…o governo trabalha para o bem de todos…. “tudo vai mal, e o fim está próximo! ” Esse é o grito de Amós, que se empenha em abrir os olhos dos outros, para que vejam a realidade antes que seja tarde demais…, mas quem é esse homem cuja mensagem escandaliza e perturba o país de Israel?

 

Amós – alguém semelhante a você e a mim.

 

            Sabemos muita pouca coisa sobre a vida de Amós. Nem mesmo quando nasceu ou morreu. Também ignoramos em que meio espiritual ele se desenvolveu. (Segundo alguns exegetas, Amós teria vivido num meio religioso, constituído de pessoas que se dedicavam ao culto; outros julgam que teria pertencido aos círculos dos sábios). Conhecemos apenas o nome de sua aldeia natal e da profissão que exercia. A primeira frase do seu livro nos diz que ele foi “um pastor de Técua” aldeia relativamente rica da tribo de Judá, que distava 17 quilômetros de Belém, situando-se nas colinas que margeiam o deserto de Judá. Ele mesmo nos diz que o Senhor lhe dirigiu a palavra quando se encontrava “[escondido] detrás do rebanho” (7,15). Mas ele se ocupava também da cultura de sicômoros – árvore que tem algo em comum com a figueira, e cujos frutos serviam principalmente de alimento para os rebanhos (7,14). A compra e venda de gado, bem como o cultivo do sicômoro (realizados sobretudo nas regiões do mar Morto e de Sefela), certamente o obrigavam a viajar e a manter contato com pessoas de diversas origens.

 

Amós, um profeta?

 

            Sem dúvida, Amós não é homem da cidade, e sim do campo. É alguém que conhece bem a natureza, ele é alguém que conhece a história passada e presente de Israel e dos países vizinhos. Anda bem informado acerca da situação social, política e religiosa desses povos (capítulos 1-3). Nesse aspecto, o acompanhamento atento manifestado por Amós vai além daquilo que seus contemporâneos entreviam.

Esse homem do Sul vê-se subitamente arrebatado de seu meio social: a palavra de Deus lhe é ordenada para que intervenha no reino do Norte. Em face do sacerdote do santuário de Betel, que o acusa de conspiração, Amós proclama sua inocência: “Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta…Foi o Senhor quem me tirou detrás do rebanho, e me ordenou: ” ”vá profetizar ao meu povo Israel” (7,14-15). Amós não é um profissional da profecia, assalariado, funcionário da corte ou do culto como os que havia em Judá e em Israel. Também não partiu dele a decisão de profetizar, nem por um instante. Sua atividade profética provém unicamente de uma escolha divina. Amós foi chamado a deixar suas raízes, a viver uma ruptura violenta. Será que podemos imaginar o dilaceramento interior desse homem habituado à vida tranqüila do campo, quando Deus o intima a deixar de lado sua pequena segurança, a fim de viver uma grande aventura de imprevisível desfecho? Por causa disso, ele tem de partir; não pode esquivar-se: “Ruge o leão, quem não temerá? Fala o Senhor: quem não profetizará? ” (3,8). De agora em diante, estarão lado a lado: é Deus quem fala: Amós empresta-lhe sua voz, como um eco –  Deus é o leão, Amós o leãozinho. De fato, Amós apresenta-se a todo momento como mensageiro de Deus de Israel, pois é em seu nome que ele fala e transmite o que lhe foi dito. No entanto, o profeta não é porta-voz passivo de Deus junto a Israel. Ele interpela os que o ouvem, e os exorta a levar a sério a mensagem que o Senhor lhe confiou: “escutai…” ele os faz refletir, e lamenta a situação em que vivem seus contemporâneos.

Deus chama a quem escuta sua voz. Ele chama homens e mulheres que não fazem o jogo do poder, e que, ouvem os gritos dos pobres, dos miseráveis, das vítimas de injustiças.

 

O “sim” do profeta.

 

            Amós certamente teve medo. Sua missão não era das mais fáceis, mas mesmo assim ele disse “sim”. Ser profeta é dizer “sim” a Deus, é ser sua voz, suas mãos, seus pés…é compreender que a fé não é, em primeiro lugar, a afirmação de certas verdades, mas antes um engajamento e uma ação contra tudo o que ameaça a vida. O profetismo surgiu, pois, como um grito restaurador de vida, como um clamor anunciando um mundo novo.

 

Deus “rugiu”: Quem não Temeria?

 

            Amós não é sacerdote, mas leigo. Também, não é teólogo. Ele não tem teorias acerca de Deus, mas Deus habita nele, sua palavra… E esse é um Deus engajado no mundo, na história, é um Deus que sofre em razão das ofensas feitas aos pequeninos de seu povo, é um Deus contrariado, que já não tolera essa situação. E Amós torna-se seu porta-voz. Por isso, a palavra, para ele, incomoda tanto quanto o rugido do leão (1,2; 3,4.8).

 

Deus se impacienta: Quem não se esconderia?

 

            O livro de Amós começa com uma série de oráculos dirigidos contra as nações (1-2). Tais textos – como, aliás, toda a mensagem do profeta – causam em nós forte impacto, pois deixam como que vincada em nós a impressão de um Deus severo, impiedoso, sem indulgência nem misericórdia. Mas, uma leitura mais atenta revela sobretudo um Deus que sofre por causa da injustiça.

Não é difícil imaginar esse profeta, até então desconhecido, erguendo-se no meio do povo e proferindo oráculos de maldição contra as nações. Os israelitas, reunidos para alguma festa, provavelmente em Betel ou na Samaria, ouvem-no com espanto. E então ele repete, com voz forte e retumbante, a decisão irrevogável de Deus de punir as nações (1,3-2,5), e indica a seguir o crime cometido e a sentença da condenação. Modo surpreendente de introduzir uma mensagem profética! Certamente, os ouvintes esperavam que, antes de tudo, ele apontasse o crime das nações. E falasse depois sobre o julgamento de Deus e o castigo. Mas não é o que acontece. O Senhor, desde logo, é apresentado como um juiz severo, inclemente, determinado a executar sua sentença de destruição – inapelável. Essa imagem de um Deus implacável choca nossa sensibilidade. Qual é, pois, o sentido de tal proclamação?

 

Ninguém vê seus próprios defeitos.

 

O Julgamento começa pelas nações que circundam Israel. E atinge sucessivamente Síria (Damasco) (1,3-5), Filisteia (Gaza) (1,6-8), Fenícia (Tiro) (1,9-10), Edom (1,11-12), Amon (1,13-15), Moab (2,1-3) e Judá (2,4-5). Ao todo, sete nações. Logo, qualquer nação pode ser objeto das invectivas do Senhor. Nem mesmo Judá, rival por excelência de Israel, foge à regra. Alívio, pois, para os israelitas. Podem dormir em paz! Deus, pela boca do profeta, denuncia o mal cometido pelos outros, o pecado dos vizinhos. Em suma, Israel não se sente concernido pelas ameaças e julga que sua conduta não é suscetível de nenhuma reprimenda… afinal de contas, Israel não é o povo do Senhor? Não estaria, por isso, ao abrigo de qualquer condenação?

Porém, contrariando toda expectativa e para escândalo dos israelitas, a estes agora o profeta se dirige (2,6-16). Com vigor o profeta passa a enumerar os crimes que eles cometeram, cuja gravidade ainda se torna maior por terem eles conhecido os benefícios de Deus. No total, são sete crimes. As vítimas? O justo, o necessitado, o fraco, o pobre, a mulher e, junto com eles, o próprio Senhor. Israel é, pois, condenado severamente porque despreza o mais frágil dentre seus irmãos e desrespeita o Deus que pretende honrar.

 

Um convite que vale para nossos dias.

 

            O Deus do profeta tem sentimentos. Assim como pode sentir alegria por causa dos atos humanos, também pode ficar ofendido. Ele sente pena e alegria, piedade e cólera. A cólera de Deus é profunda quando alguém toca num de seus pequenos. Amós convida-nos, portanto, a um questionamento acerca da imagem que fazemos de Deus. A imagem de um Deus distante que nada tem a ver com os sofrimentos dos seres humanos, ou a imagem de um Deus que está sempre pronto a estender a mão e a perdoar, não seriam representações de um Deus cúmplice da ordem estabelecida, que legitimaria por essa forma a opressão do mais fraco? Ao contrário, a imagem de um Deus cheio de cólera, que perde a paciência com as injustiças praticadas contra os mais carentes, não seria a de um Deus engajado nas mudanças sociais e no estabelecimento de uma sociedade mais justa? Não faz parte da vontade de Deus que os homens sejam infelizes, sofram opressão e abusos. Estaríamos nós dispostos a entrar em conexão com o sonho que Deus tem para o mundo, pondo-nos à espreita de seus desígnios em vista de um futuro onde haja esperança?

 

Quem são as vítimas da injustiça?

 

            No oráculo de maldição contra Israel (2,6-16) cinco termos diferentes são utilizados para designar a pessoa que é explorada no país: o “justo”, o “necessitado”, o “fraco”, o “pobre”, e a “mulher”. Na boca do profeta, o justo é o inocente, que sofre sem que nada o justifique; o necessitado designa principalmente uma pessoa sem defesa, sem voz e que, por isso, está à mercê dos fortes; o pobre é aquele que suporta as injustiças dignamente, e “a mulher” se reporta provavelmente à escrava ou à serva que trabalhava para as famílias ricas. A essas cinco categorias de vítimas da injustiça o livro de Amós acrescenta ainda: “aquele que sofre extorsão” (2,8) o nazir e o profeta (2,12), o homem “prudente” (5,13), o que “defende o justo no tribunal” e o que “fala a verdade” (5,10). Esses dois últimos não representam nenhum grupo social. É provável que sejam objeto de injustiças em situações específicas, por causa de seu amor pela verdade. Quando o ser humano é oprimido, o santo nome do Senhor é profanado.

 

Quem são os responsáveis pela opressão?

 

Amós denuncia toda pessoa que oprime o pobre e maltrata o indigente. Antes de mais nada, ele denuncia aqueles “que venderam o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sandálias” (2,6; 8,6)). Nessa primeira acusação, o profeta tem certamente em vista a venda de pessoas pobres como escravos, porque eles não têm como pagar suas dívidas. A seca, fenômeno natural corrente naquela região, deixava os camponeses pobres à mercê dos ricos. Esse texto talvez faça referência à venda de um filho de algum devedor insolvente. A escravidão não era proibida em Israel, e geralmente ocorria como efeito da miséria econômica. Ora, o rico não apenas vendia o pobre como o escravo por dinheiro, mas também trocava o indigente – que é menos do que o pobre – por um objeto de pouco valor, por exemplo um par de sandálias. Hoje se diria: por qualquer ninharia…, contudo, o simbolismo ligado à sandália é bem forte. No mundo antigo, só andava calçado quem tinha recurso para tal. Caminhar calçado num campo ou lançar sobre ele suas sandálias significava tomar posse dele. O calçado era, pois, o símbolo do direito de propriedade. Pisar a cabeça dos pobres equivale a reduzi-los à não existência.

Em segundo lugar, o profeta clama contra aqueles que “pisoteiam os fracos no chão e desviam os pobres do bom caminho” (2,7; 8,4). Para os ricos, que os pisam, os pobres são como o pó da terra. O ser humano foi feito da poeira do solo (Gn2,7) para em seguida Deus insuflar nele o hálito da vida, a fim de que o homem se tornasse “um ser vivo”, ou seja, uma pessoa. Ora, de acordo com Amós, a opressão exercida pelos poderosos reduz de novo o ser humano a pó. Assim tal opressão é como uma anticriação. Reduzir o indivíduo a pó é o mesmo que rebaixá-lo ao estado pré-humano, é fazer com que ele retorne ao estado de não-pessoa.

A expressão “desviar os pobres do bom caminho” pode exprimir a influência perniciosa dos poderosos, mediante o recurso a atos judiciários intentados contra os pobres, as pessoas influentes desviam o caminho da justiça a fim de defender seus próprios interesses.

Em terceiro lugar, são mencionados todos aqueles que “se deitam sobre roupas penhoradas” e que bebem “o vinho de juros” (2,8). Segundo Êxodo 22,25-26, quem toma o manto de um pobre em penhor deve devolvê-lo. Amós propõe um novo ideal ético: que nenhuma veste seja tomada em penhor. A veste é, antes de mais nada, a última proteção da pessoa – dom de Deus, da mesma forma que o pão. O profeta não pode, pois, tolerar que os ricos se apropriem dos mantos tomados em penhor, nem que bebam o vinho que extorquiram a outrem. Convém não esquecer que, para aquela sociedade, o manto representava a própria pessoa, e que a nudez simbolizava o despojamento total, se não a morte. Após terem pisado os indigentes, reduzindo-os a pó, os poderosos ainda se apropriam do pouco que restou aos indigentes, deitando-se em seus mantos. Esse gesto é ainda mais abominável por ser levado a cabo na casa de Deus, associando-se assim impiedade e injustiça! Os poderosos não só tendem a dissimular o crime, mas também a justificá-lo e até mesmo a celebrá-lo!

Mas quem são essas pessoas que oprimem os pequenos?

  • Os comerciantes que auferem altos lucros em detrimento dos pobres (8,4-6)
  • Os juízes que se tornaram responsáveis pela perversão do direito em Israel (5,7.10-1-13)
  • As mulheres ricas, que só pensam em gozar a vida, aproveitando-se de todos os prazeres (4,1-3)
  • Os políticos, verdadeiros funcionários do Estado, que vivem despreocupados por causa da segurança econômica e militar de que gozam (6,1-7).
  • O clero local, que reagia às palavras do profeta por meio de seu chefe, o sacerdote Amasias (7,10-17). Fazendo o jogo do poder, o sacerdote Amasias manda dizer ao rei que Amós conspira contra ele. O profeta não havia denunciado implacavelmente a exploração dos fracos erigida em seu sistema?

Para Amós, a presença de Deus não é incondicional. Ela depende do grau de observância da justiça, por parte do povo de Deus, nos negócios públicos ou privados. O destino de Israel será definido em função de sua atitude em face ao direito, e não em função da escolha feita por Deus.

 

Deus vira o rosto: quem não se lamentaria?

            Naquele tempo, todos os santuários se transformaram em pontos de apoio para a autoridade política e econômica que explorava os pequenos. Amós se revolta contra um culto limitado a formas puramente exteriores, e em nome de Deus clama (5,21-24). O culto dissimulava a injustiça.

Os israelitas praticam o culto a fim de obter a benevolência do Senhor, evitando assim modificar o comportamento que tem em relação aos outros. Trate-se de um embuste, de um tipo de suborno, exatamente como se acostumaram a fazer os juízes. Nota-se o contraste:de um lado, “suas” festas, “suas” assembléias, “seus” sacrifícios; de outro, expressões tais como “eu detesto…, rejeito…não posso nem ouvir…, nada há que me agrade…, afasto o rosto” Amós não tolera a hipocrisia de um culto desmentido cotidianamente na prática. Tal culto é um insulto a Deus de Israel. A verdadeira aliança com Deus deve traduzir-se em atos – o culto do Senhor dissociado de um comportamento justo corresponde a uma blasfêmia que induz os fiéis ao erro.

 

O “talvez” de Deus.

            O livro de Amós só tem um oráculo de felicidade (9,11 – 15). Após oito capítulos anunciando um julgamento de morte, eles representam uma total reviravolta na situação: o Senhor perdoará seu povo e lhe devolverá todos os bens de que o privou por causa de sua cólera. Contundo, esse oráculo alerta que se a salvação depende de Deus, o Senhor não pode impô-la. É preciso que a ação de Deus vá ao encontro da ação dos humanos. Aliás, nesses oráculos de salvação há sete outros verbos para assinalar a ação humana: “conquistar”, “construir”, “morar     , “plantar”, “beber”, “cultivar” e “comer”. O senhor constrói a cidade reduzida a ruínas (9,11), e os israelitas reedificam as cidades devastadas (9,14); os israelitas plantam as vinhas e cultivam os pomares (9,14), e o Senhor os “planta” em sua terra (9,15). O diálogo entre Deus e seu povo é perfeito, a harmonia está restabelecida.

Para certos exegetas, essa conclusão positiva, assim como certas expressões que deixam entrever uma possível saída, não fazem parte da mensagem original do profeta. Seriam acréscimos tardios para expressar a convicção da comunidade de Israel de que Deus não quer exterminar seu povo. Esses complementos ao texto demonstrariam assim que os escritos proféticos eram considerados obras abertas que valiam não apenas para o presente, mas também para o futuro.

 

Conclusão

            Em sua prática tradicional, as Igrejas sempre se interessaram pelos pobres. A esse respeito, elas estão cheias de boa vontade. Os que “têm”, dizem elas, devem ajudar os que “não têm” a libertar-se de sua pobreza. Mas essa noção de auxílio e de paternalismo históricos apenas serve para manter os pobres no nível de dependência em que se encontram. Ela não contribui para libertar o pobre, pois não valoriza o seu potencial. O pobre também tem cultura, capacidade de trabalhar, de organizar-se, de autodeterminar-se. Falando em nome de Deus, Amós rejeita essa “religião-álibi” que não apenas retira dos pobres o seu papel e sua hegemonia, mas que até mesmo busca justificar a exploração dos pequenos. Um culto assim constitui grave ilusão. Vem a ser o mesmo que zombar de Deus, visto que não é possível prestar-lhe culto calcando aos pés o direito. O profeta modifica a ordem das prioridades: o mais importante não é o culto, mas a justiça! Essa mensagem do profeta nos diz respeito ainda hoje. Continuamos a freqüentar as Igrejas, a participar das festas do calendário litúrgico, a rezar, a cantar, a depor nossas oferendas sobre o altar, a ler a Bíblia, continuamos a batizar nossos filhos, a levá-los para fazer a primeira comunhão, a celebrar casamentos e funerais na igreja. Mas se Amós vivesse entre nós o que diria ele de nossas práticas religiosas? Não pensaria ele que, assim como se dera no século VII AC, nossas igrejas transformaram a Boa Nova em moralismo opressor e em ideologia religiosa? E que nossa maneira de viver em Igreja, o mais das vezes, dissimula as injustiças? E que ela mantém o status quo, ocultando a gravidade da situação? Nossa “religião” tem mais a ver com a continuidade de uma tradição ou com uma verdadeira conversão do coração? Continuamos a fazer isso e aquilo porque nossos pais e nossa família assim o fizeram, ou porque a palavra de Deus está em nós?

Nos últimos decênios, falou-se muito da presença cristã no mundo. Alguns grupos – como os do cristianismo social, político, das teologias da libertação- deram maior ênfase à vocação política e econômica dos cristãos, chamados a tornarem-se instrumentos da transformação social. Estamos entre aqueles que não vêem nenhuma relação entre evangelização e justiça social? Somos daqueles que dissociam o espiritual e o temporal? Temos consciência de que a justiça é parte integrante da vocação de cada cristão?

Quanto a mim, estou pronto a ouvir minha irmã e meu irmão, a abrir os olhos para ver com clareza o que ocorre à minha volta, a ser livre diante da idéia do ter, a caminhar junto com os outros, a dizer algo em seu favor e a agir em consequência? Estou pronto a abandonar meu conforto miúdo para lançar-me numa aventura com Deus, sabendo de antemão que o percurso será difícil? Estou pronto a tornar-me, também eu, uma pessoa que é deixada de lado? …segundo a tradição, nenhum dos profetas de Israel terminou seus dias em casa confortavelmente; todos foram incompreendidos, rejeitados e maltratados. Posto que a palavra dos profetas incomoda, tenta-se reduzi-los ao silencio. Estou pronto a chegar até esse ponto?

O Papa Francisco na missa de encerramento da JMJ 2016 na Cracóvia, incitou aos jovens a não serem cristãos de sofá, ou seja: não ficarem no conforto de seus lares, mas sair, ir em busca do necessitado, daqueles e daquelas que vivem nas “periferias existenciais”.

 

Eu responderia que até certo ponto sim, uma vez que meus trabalhos pastorais estão voltados para os pobres, (Pastoral da Pessoa Idosa e Pastoral da Criança) para os necessitados, para os que não tem informação, para os que são explorados pelos postos de saúde quando não são adequadamente atendidos, pelas gestantes que não sabem seus direitos, pelas crianças que não têm vaga em creche, e impedem as mães de trabalharem fora de casa, pelos idosos explorados e abandonados pelos próprios familiares, e outros tantos problemas que nosso povo enfrenta, mas mesmo assim, meu “sim” é parcial…é como São Francisco disse em seu leito de morte ao Irmão Leão: “adiantemos, Frei Leão, adiantemos, pois até agora nada fizemos.”

 

Por que gostei do profeta Amós?

 

…será que por tudo o que li e escrevi acima, ainda preciso disser porque gostei dele???

 

 

 

 

Referência:

SILVA, Aldina da – Amós, Um Profeta Politicamente Incorreto. Paulinas 2001 (coleção Bíblia na mão do povo)

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Reflexão sobre Lc 15,11-32 – Parábola do Pai Misericordioso

Seu Pai viu-o e encheu-se de compaixão.

Queridos e queridas jovens, paz e bem.

Jesus se utiliza de parábolas para mostrar como é o Reino de Deus. E o que é parábola? Porque Jesus ensinava, ou ensina através de parábolas?

Jesus se utiliza de parábolas por elas serem de fácil entendimento para todos, inclusive para o povo simples e sem cultura, pois relatam cenas do cotidiano, no entanto elas nos mostram um mundo novo, uma nova forma de se viver, nos leva ao entendimento do que Jesus quer nos ensinar por consequência no leva a conversão. Pelas parábolas de Jesus, ficamos conhecendo Deus e como ele age em relação conosco.

A parábola do filho pródigo, que eu prefiro nomeá-la de parábola do pai misericordioso; é a mais conhecida, a mais lida, e a mais linda de todas que o evangelho contém, poderíamos dizer que é o núcleo do evangelho de Jesus a parábola do Pai misericordioso. Talvez esta parábola nem precisasse de comentários, porque ela é tão profunda, bela, simples, dramática, comovente, que bastaria ouvi-la ou lê-la com o coração receptivo para nos darmos conta do imenso amor de Deus, um amor incompreensível que Deus tem para conosco.

Para melhor compreender essa parábola, é preciso contextualiza-la. No início do da narração do capítulo 15, Lucas nos diz que “Todos os publicanos e pecadores aproximavam-se para ouvi-lo. Os fariseus e os escribas, porém, murmuravam: “Esse homem recebe os pecadores e come com eles!”contou-lhes, então, esta parábola:” (Lc 15,2) aqui se seguem três parábolas: a ovelha perdida, a dracma perdida, e a do Pai misericordioso. Fiquemos com a terceira que o objeto de nossa reflexão.

Temos aqui quatro personagens: o filho mais novo, o Pai, o filho mais velho e os servos que podemos dividir em dois tipos de servos, que explicarei ao final da reflexão. Podemos analisar a parábola por diversos vieses, vamos refletir sobre o viés da retribuição, pois esta é a que mais se aproxima do nosso modo de agir para com as pessoas que erram, que se desviam do caminho que Jesus nos propõe. Tanto no tempo de Jesus como nos nossos dias, pois acreditamos sempre em algum tipo de recompensa: se praticamos o mal com mal devemos ser pagos, e se praticamos o bem, com bem devemos ser recompensados. Jesus através desta, e de outras tantas, parábolas nos mostra que não é assim o agir de Deus para com os pecadores, os marginalizados, os excluídos da sociedade.

Passa-nos despercebida a misericórdia do Pai já no início da parábola, quando o filho mais novo pede sua parte na herança; o livro do Dt 21,18  determina que se houver um filho rebelde e indócil, que não obedece aos pais, é devasso e beberrão, todos os homens da cidade o apedrejarão até que morra.  Porém o Pai não faz isso, não denuncia, não questiona o filho mais novo do por que desta atitude, se brigou com o irmão, se o modo que o Pai lhe trata não lhe agradava, se quer ter uma vida independente. Não, o Pai não questiona, simplesmente entrega a parte que lhe cabe da herança. Perceba que o Pai já transgride a Lei da herança, e age com misericórdia.

O filho mais novo vai embora sem dizer seu rumo, e suas intenções. Longe do Pai  ele vive como quer, da maneira como acredita ser a verdadeira vida, gasta tudo até que fique sem nada, não tendo como sobreviver, procura trabalho, mas ninguém lhe dá, até que consegue um dos trabalhos mais degradantes para um judeu: cuidar de porcos,  notamos que ele está muito longe de casa, pois não se podia criar porcos em Israel, ele está, muito provavelmente, em terras pagãs; ele é tão humilhado que chega ao ponto de passar fome pois nem a comida dos porcos lhe davam. Quando então “cai em si” e pensa em retornar a casa do Pai, pois nem os empregados eram tratados de forma tão humilhante, e lá havia fartura.  Na casa do Pai sempre há fatura.

Considerando que o Pai misericordioso é Deus Pai,  podemos fazer uma analogia do que acontece quando nos afastamos de Deus: adoramos outros deuses – no caso o patrão –  nos humilhamos, perdemos a nossa dignidade humana criada a imagem e semelhança de Deus – cuidar de porcos. Corrompemo-nos, somos injustos, por vezes violentos, acabamos na solidão, abandonados a própria sorte que escolhemos.

Ao chegar ao fundo do poço o filho mais novo se lembra do Pai, e pensa em voltar, e o faz, não tem mais nada a perder, mas não se trata de arrependimento, ainda, ele quer voltar para matar a fome, como diz o ditado popular, se não vamos por amor, vamos pela dor. A dor da fome é que incentiva o filho mais novo a retornar a casa do Pai. Cabe aqui uma pergunta: por que procuramos Deus Pai? Por retribuição, por “fome” de alcançar uma “graça” e uma vez alcançada – saciados –  o abandonamos novamente? Ou procuramos o Pai para adora-lo, louva-lo, porque sabemos que Ele nos ama? E reconhecemos esse amor, amando os outros como Ele mesmo nos ama, e saímos ao encontro dos excluídos, dos marginalizados, dos esquecidos, dos explorados, dos injustiçados, dos sem teto, dos sem nada, para ama-los como Ele nos ama?

Quando o filho mais novo ainda está a caminho o Pai sai ao seu encontro, é um Pai em saída, isso nos faz lembrar as palavras do Papa Francisco que pede uma Igreja em saída, que vai ao encontro do filho “morto” que agora retorno para a “vida”. O filho inicia seu pedido de perdão, mas o Pai não o deixa terminar, sua felicidade é imensa, incompreensível, que manda vestir e calçar, ou seja: devolve a dignidade perdida, põe lhe o anel no dedo, mostrando a sua importância dentro daquela casa, manda preparar o “novilho cevado”, não é um novilho qualquer, é “o” novilho cevado, ou seja: um que foi especialmente preparado para uma festa, um banquete. Pois este “filho estava morto e tornou a viver” (Lc 15,32). Pode se dizer que Jesus não vai a busca dos que estão arrependidos, mas dos que estão perdidos, por maior que seja o tamanho do pecado cometido, Jesus vai ao encontro, oferece seu amor gratuito e ilimitado, oferece, também, o perdão de Deus que é totalmente gratuito e infinito, que tem o poder de fazer nascer para uma nova e verdadeira vida, uma vida com abundância (cf Jo 10,10), desde que cada um reconheça este amor tão grande que é incompreensível para as pessoas.

Porém enquanto o Pai, o filho mais novo e alguns servos celebram a vida, o filho mais velho retorna do campo onde trabalha para o Pai, ouve músicas e danças, e pergunta a um dos servos o que está acontecendo, este, que talvez também não compreenda a atitude do Pai, diz com certa ironia: “É teu irmão que voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque recuperou a saúde”. (Lc 15,27) O servo simplesmente cita o novilho cevado e diz que o irmão recuperou a saúde, de maneira muito simplória, não se nota alegria no falar do servo. Neste momento o filho mais velho encoleriza-se, fica cego de raiva, não quer entrar em casa. O Pai, mais uma vez sai ao encontro do filho, desta vez do mais velho; este não quer ouvir o Pai, acusa-o de ser avarento, uma vez que nunca lhe ofereceu ao menos um cabrito, e para o filho devasso, que “devorou todos teus bens com prostitutas e para ele matas o novilho cevado”. (Lc 15,30) O filho mais velho não vê a atitude misericordiosa do Pai, pensa apenas na retribuição e não na graça, não se alegra com a volta do irmão, sua mente está voltada para o novilho gordo e no cabrito que nunca lhe foi oferecido. O texto diz “ficou com muita raiva” (Lc 15,28), é um contra ponto com o que o Pai diz “encheu-se de compaixão” ((Lc15,20). A raiva o cega e o impede de ver o bem, seus olhos enxergam apenas o pecado do irmão e não o bem que o Pai está fazendo. O Pai justifica ao dizer que tudo o que é dele está à disposição do filho que sempre esteve com ele, e completa dizendo que “era preciso que festejemos, pois este teu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”(Lc 15,32). O Pai reconhece que o patrimônio pertence ao filho mais velho, mas pede que ele mude a mentalidade, reconheça a graça e não a retribuição, pagar o mal com o bem.

A parábola não relata qual a atitude do filho mais velho, se ele acolheu a palavra do Pai, se foi dar as boas vindas ao irmão, ou se resolveu pedir sua parte da herança e partir também. Tudo são escolhas entre o bem e o mal. A parábola é aberta, deixa-nos pensar também em escolhas, qual delas fazemos?

Disse no inicio da reflexão que existem quatro personagens, os três primeiros são evidentes, é preciso uma leitura mais atenta para perceber o outro, ou outros personagens, são os servos. Poderíamos nomeá-los servos da misericórdia do Pai. Quando o filho mais novo é “reencontrado” o Pai manda vesti-lo com a “melhor túnica”, calça-o, põe-lhe o anel no dedo, mata o novilho gordo, os servos prontamente o atendem e participam da festa da misericórdia também.

Porém, há um deles que parece que não concorda com o que está acontecendo, é o servo que dá a notícia do retorno do irmão ao filho mais velho, a partir dai desencadeia o que já comentamos. Nas palavras do servo interrogado pelo filho mais velho há uma limitação: “é seu irmão que voltou e sei Pai matou o novilho cevado, porque ele recuperou a saúde” (Lc 15,27), nestas palavras transparece um juízo que o servo faz, reduz a misericórdia do Pai a uma injustiça contra o filho mais velho. Talvez tenha ficado irado também porque coube a ele matar o novilho cevado, imagino. Também aqui ele raciocina segundo a lógica da retribuição é não da graça.

Podemos fazer mais uma analogia aqui, se pondo no lugar dos servos. Aos servos cabe apenas o papel de executar as ordens do Pai misericordioso sem questiona-lo, não se é juiz, mas servente, executores das ordens dadas, colaboradores para restituir a dignidade de quem a perdeu, é esse o trabalho dos servos da misericórdia.

Ao final desta reflexão cabem algumas questões:

  1. Qual dos quatro ou cinco personagens nos identificamos: com filho mais novo, que abandona o Pai, mas só retorna por outros interesses e não arrependimento (fome)? Com filho mais velho que não reconhece a misericórdia do pai, não consegue enxergar o bem, apenas o pecado nos outros? Dos servos que atendem prontamente a solicitação do Pai e participam da festa da vida, ou com o servo inconformado com a maneira que o Pai trata o filho mais novo e também não enxerga a misericórdia e faz pior, noticia maldosamente as atitudes benevolentes do Pai? Ou nos identificamos com o Pai misericordioso, sempre acolhendo, melhor dizendo, sempre indo ao encontro daqueles, daquelas que estão perdidas, esquecidas, excluídas, exploradas, e levamos uma palavra de alívio, consolo, demonstramos um olhar caridoso, devolvendo-lhes a dignidade humana, e o amor próprio?
  2. Até que ponto estamos dispostos a sair de nós mesmos e seguir as palavras do Papa Francisco que quer uma Igreja em saída, e não uma que fique presa à sacristia?
  3. Quando de fato deixaremos de julgar as atitudes alheias ao invés de lhes dar a mão e ajuda-las a se levantar da queda? Jesus já recomendava: “Não julgueis para não serdes julgados” (Mt 7,1)