Analise crítica sobre o livro: Relatos de um Peregrino Russo, por Bruno Redígolo

A busca por respostas diante das inquietações inerentes ao coração humano é uma aspiração que possivelmente não termina nem se esgota na imanência desta vida. É justamente este inquietante processo de busca que perpassa todo o livro, instrumento desta analise: Relatos de um peregrino russo.

Antes de adentrar no conteúdo propriamente dito, é bom trazer presente a contextualização dos fatos nele descritos. O livro retrata aspectos típicos da Rússia no século 19 e foi publicado sem nome de autor, muito provavelmente em 1865, numa forma ainda primitiva, com muitos erros, e em 1884 numa edição corrigida e mais acessível. Mas foi somente no início do século XX que a obra ganhou repercussão diante dos corações nostálgicos do povo russo, sobretudo daqueles que se encontravam fora do país. Os personagens que se apresentam no livro fazem parte da cultura russa como, por exemplo, o chefe dos correios, um escrivão, um príncipe, mas estes, aos poucos, vão se tornando familiares ao leitor, que se envolve nas aventuras postas a sua frente. E são muitas as aventuras. Mesmo se tratando de um livro espiritual, o seu desenrolar é envolvente e mesmo inesperado.

Logo de início a chave de leitura é descortinada nas passagens bíblicas que diz: “É preciso rezar sem cessar (1Ts 5,17), rezar em todo tempo, no Espírito (Ef 6,18), erguendo em todo lugar mãos santas (1Tm 2,8)”. Este será o combustível de uma alma que não descansará enquanto não compreender a essência e a aplicação destas passagens na vida.

As respostas que o peregrino encontrou num primeiro momento acabaram por não satisfizer seu coração. Na igreja ouviu bonitas homilias, de homens sábios teve bons conselhos, mas nada que pudesse ensiná-lo a “rezar sem cessar”. Como peregrino que era, seguia seu caminho. Mesmo sem destino, seguia. O espiritual lhe era bem-vindo e se transformou na força central do protagonista, podendo supor que era portador de uma mística pessoal bem particular dos monges. E por meio justamente de um monge é que o livro parte em outro rumo. Outro rumo porque, enfim, o peregrino encontra a chave que abre caminho para transcender – ainda mais – na vida espiritual. E não seria exagero dizer que, a partir deste encontro com o monge e as suas consequências, o peregrino já sentia o Reino de Deus mesmo ainda não tendo partido para a Eternidade. Foi um diálogo, um encontro, tão singular na vida do nosso personagem que a transformação foi quase que imediata. Mas, o que teve de tão miraculoso? Qual foi, por fim, a resposta de como “rezar em cessar”? Em suma, o monge o sugeriu a leitura da Filocalia (1), a invocação perpétua do nome de Jesus que se exprime nas palavras: “Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim”, apresentada pelo monge como a Oração de Jesus. Eis aqui o cerne do livro.

A partir daqui começa outra etapa da história, onde se apresenta a vivência e a prática diária do peregrino neste novo método de oração. Não demora até se verificar que ele, enfim, alcança o que desde o início buscou: rezar sem cessar.

Surpreendi-me com a simplicidade do texto, o que proporciona uma proximidade entre o leitor e a história do peregrino. E quando se leva em consideração o método da espiritualidade proposto no livro, se constata que qualquer pessoa pode também fazê-la. Não é preciso ser um erudito das sagradas escrituras, não é preciso ter uma vida acética ou isolada, na verdade não é necessário muita coisa para poder ter a mesma experiência do peregrino e transcender a alma para Deus. Basta querer! No entanto, a perseverança e fidelidade ao propósito são requisitos básicos e indispensáveis. E justamente são estes pressupostos que estão tão em baixa no mundo contemporâneo. Tão inatingíveis. Isto porque as almas de hoje em dia estão cheias de vazio, preenchidas do supérfluo e anestesiadas para o silêncio. Não há tempo para dedicar ao sagrado. Não há espaço para pensar em Deus, pois as muitas preocupações do mundo moderno impedem de enxergar os sinais do Criador. Não se pode responsabilizar somente as pessoas por este endurecimento de coração, o próprio sistema que as envolve favorece isto. O capitalismo fomenta a preocupação pelo ganho, pelo sustento da vida, pelas possibilidades que só serão possíveis se o financeiro estiver sempre positivo. A sociedade, por sua vez, evidencia um modelo de indivíduo cada vez mais difícil de se atingir na própria vida do homem, onde o padrão ideal de beleza é sempre um, e mais nenhum outro; onde para ter destaque é preciso fazer uso das “marcas conhecidas”; onde se faz necessário ter o último modelo de tecnologia daquilo ou disto; a ciência avançou – o que é muito bom – mas serviu também para que alguns colocassem nela a própria fé, ignorando completamente a existência de um Deus que rege todas as coisas. Não ouso subestimar o ser humano e sua sede ontológica do transcendente, mas é visível que traçamos o caminho mais longo deste tão esperado encontro com o Criador. Mesmo a instituição Igreja tem sua carga de responsabilidade quando dificultou o acesso do humano ao divino:

Além disso, é necessário reconhecer que, se uma parte do nosso povo batizado não sente a sua pertença à Igreja, isso deve-se também à existência de estruturas com clima pouco acolhedor nalgumas das nossas paróquias e comunidades, ou à atitude burocrática com que se dá resposta aos problemas, simples ou complexos, da vida dos nossos povos. Em muitas partes, predomina o aspecto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentalização sem outras formas de evangelização.” (2)

Assim, o homem de hoje não acredita ter dissipado a obscuridade do mistério; ele pretende se elevar à claridade da razão pura e estar liberto da vontade. Pela primeira vez o homem se sente verdadeiramente rei do mundo” , é o que diz Dom Odel Casel.(3)

Dito isto, poderíamos concluir que os relatos do peregrino russo são inviáveis ao homem do século XXI. Poderíamos. Mas não seria correto. Ao mesmo tempo em que tudo o que foi dito é verdade, não se pode ocultar o desejo crescente do humano em busca do divino. O Papa Francisco tem despertado o interesse do mundo à pratica desta espiritualidade simples e acessível que ele mesmo emana em seus discursos e muito encarnada nas suas atitudes. Mesmo nós, ditos católicos, somos tocados pelo exemplo do Papa, somos interpelados, questionados pelo exemplo de cristianismo que passamos a esta sociedade carente e desnorteada. E a pergunta que se faz é esta: será que também nós não estamos sendo levados pelas mesmas tendências contrárias ao encontro com Deus, consequentemente com o meu outro, meu próximo?

No livro, o peregrino vive uma experiência de Deus a nível mais particular, individual. Necessária e valida. Sua vida desapegada dos bens materiais contribui e muito para que esta experiência tenha êxito. Entretanto, tal experiência, hoje, é uma raridade fora da hierarquia clerical. Como já apresentado, o mundo não é um lugar facilitador para que os leigos tenham este encontro, devido as tantas preocupações existentes. Por isso a comunidade pode ajudar, transpondo o particular ao coletivo.

O que mais encanta no livro é a simplicidade do método na busca pela espiritualidade. O “rezar sem cessar” se mostrou possível. A Oração de Jesus, com o tempo, preenche a lacuna que aguardava a essência do divino – pelo menos é assim que o livro demonstra. Há este método e outros para responder ao coração inquieto do homem de que Deus é presença, Ele existe, se importa e rege a orquestra que é o mundo.

Na escolha desta literatura, não tive critérios, a não ser o fato de ter escutado ao menos duas vezes alguém falar, vagamente, sobre. Minha impressão do todo ao ler a obra é que ela não é atual, mas pode se tornar. Isto depende tão somente do coração e da alma de quem irá beber das instruções do peregrino. Ele que buscou, buscou, e encontrou o caminho que o levou ao encontro com o Deus escondido. Escondido sim, mas possível de ser encontrado.

por Bruno Redígolo

 

(1) Coletânea de textos de 25 padres da Igreja sobre a oração espiritual e a guarda do coração.
(2) Papa Francisco. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, parágrafo 63.
(3) CASEL, Odo. O mistério do Culto no Cristianismo. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

 

 

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