Resenha do livro: MONSIGNORE Jack-Alain Léger, por Bruno Redígolo

O livro MONSIGNORE de Jack-Alain Léger retrata situações divergentes entre si que de tempo em tempo aparece na vida de alguém. De um lado, o garoto John, nascido e criado na periferia estadunidense sem grandes perspectivas de futuro, do outro lado o mesmo John, mas agora como cardeal, ou como o livro prefere: monsenhor, monsenhor Flaherty, um dos mais influentes bispos da cúria romana de sua época. Este paradoxo é intrigante. O autor abusa de avanços e retornos para contar a história do personagem central da trama e esmiuçar os detalhes de como tudo foi possível.

Em sua conturbada adolescência, John era um dos cabeças da gangue chamada Devils, que tinha como grande rival outra gangue chamada Black Flangs, cujo líder era Eliah Varese. Estas eram as duas gangues que circulavam pela mesma área, ambas buscando o controle do bairro. Misteriosamente John tinha admiração por Varese, e mais tarde veremos que o contrário também é verdadeiro. E quis o destino os fazer grandes companheiros em meio aos afrontamentos que antes tiveram. A vida seguia. E naquele submundo o tempo passava mais devagar. De repente, uma situação, e tudo muda. John, católico, e Varese, judeu, resolvem assaltar a paróquia do bairro. Os planos não dão certo. John é denunciado pelo padre, que descobre a ação, e tem a polícia em sua porta. Está encurralado, sem saída. O reformatório será seu endereço a partir de então. A não ser que o inesperado aconteça. E acontece. O padre aceita retirar a queixa contra o jovem assaltante, mas sob uma condição, que John vá para o seminário. O que é aceito pela família, acreditando ser o último recurso que possa salvar o filho rebelde. E lá vai John.

John tem alma nobre, no entanto suas influências mostraram não ajudar até então. Em busca de mudança, resolve se empenhar no seminário, tentando ser o primeiro em tudo. Segue a risca esta determinação, o que desperta inveja dos colegas no seminário. John segue adiante. Não era fácil. Começam os questionamentos sobre a vida que levava, sobre o momento atual e daquilo que seria seu futuro. Confessa não levar jeito para a vida eclesiástica, mas é submisso aos padres que o enxergam como um bom menino. Este era John, cativante, sabia usar seus dons em seu favor. Acabou ordenado sacerdote, mesmo que aparentemente contra sua vontade. Não demorou até que a mais alta instância do clero local também fosse afetada pelo encantamento do jovem. De fato, John sabia jogar. Conseguiu as melhores notas quando passou pelo seminário, compreendia como ninguém a Sagrada Escritura, mantendo-se humilde e obediente aos seus superiores.

Mesmo como padre, instintos de sua vida profana o perseguiam, o que o fez lutar na guerra. Teve grandes experiências nesta nova etapa. E foi neste ambiente não tão amistoso que conheceu outro bispo, este ligado as forças armadas, cujas relações lhe eram estreitas com o Vaticano. Também este epíscopo não teve forças para lutar contra a sedução que emanava da personalidade do belo e nobre John. Justamente este bispo foi o responsável pela introdução de John no Vaticano. Isso mesmo. Aquele adolescente de periferia, assaltante de sacristia que quase foi para atrás das grades agora era um sacerdote, funcionário da Cúria Romana, no Vaticano. Quem poderia imaginar. Particularmente não vejo John como um carreirista. Como alguém que planejou fazer o que fez. Percebo mais neste predestinado um conformismo ao que o destino lhe trouxe, mas que não o faz desligar-se de seu passado. Isto fica claro quando John se cansa da rotina vaticana e vai morar fora dos muros da cidade. Neste momento ele, clérigo, inicia um relacionamento amoroso com uma jovem, que se tornaria seu grande amor. Tal relacionamento o faz reviver os questionamentos da vida sobre o que é que vale a pena. E, mesmo sob uma vida dupla, John mantém a batina.

Seu grande amor o abandona e, em grande parte, seu sentido de vida também. Reencontra Varese, seu grande amigo, e então se afoga numa trama maior que sua vida oculta. Passa a fazer parte de negócios internacionais ilegais junto de Varese, o que lhe rende grande retorno financeiro. John retorna por um tempo à sua cidade natal e revitaliza a antiga e pobre paróquia que anos atrás havia roubado. Apesar de seus atos ilícitos, John é caridoso.

O Vaticano descobre tudo sobre John. O prende sob a proteção da guarda suíça, que se corrompe pela grande amizade com o prisioneiro. John, nesta altura já como cardeal, foge e dá o start ao desfecho final e eletrizante do livro: um jornalista investigativo – presente desde o início do livro – relaciona um assassinato a John, além de todo envolvimento com os negócios internacionais ilegais. John se aproxima deste jornalista e, juntos, se posicionam contra Varese, de quem suspeitam que seja o autor verdadeiro do assassinato e de atos violentos, desaprovados por John. Esta repulsa entre aqueles que até então se consideravam irmãos faz rememorar à épocas em que pertenciam a gangues concorrentes. Será diante deste sentimento que o livro vai chegando ao seu fim, vendo Varese morrer e tão logo John, após uma luta de tirar o fôlego, com direito a incêndio e uma fuga em alta velocidade.

O autor do livro faz questão de avisar ao leitor nas primeiras páginas de que o livro foi romanceado, mas que muitos dos fatos contidos nele são verídicos. A manipulação dos fatos, ou sua integração com a fantasia, acaba colocando John como uma referência, como alguém a ser imitado. A ideia é de que os votos religiosos são postos em cheque, participantes apenas de uma grande tradição, tradição esta quebrada no livro de uma maneira tranquila, tão tranquila que é vista sem maiores problemas. Todo o contexto restante não passa de um bom drama com pitadas de um suspense intrigante.

Para lazer, vale ler sido.

por Bruno Redígolo

LÉGER, Jack Alain. Monsignore. São Paulo: Círculo do Livro, 1976.

 

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