História da Igreja Antiga: esboço geral e sucinto da evangelização das primeiras comunidades cristãs

INTRODUÇÃO

A presente monografia da disciplina História da Igreja Antiga tem a pretensão de traçar um esboço geral e sucinto da evangelização das primeiras comunidades cristãs.

Mostraremos o momento histórico do evento Jesus de Nazaré e a área geográfica em que o cristianismo se fez divulgar até o ano 476, quando, para alguns historiadores, se finda a Idade Antiga com a queda do Império Romano do Ocidente e inicia-se a Idade Média.

Para este trabalho se faz necessário mostrar de que forma se deu o anúncio do Evangelho e a forma como a Igreja se organizou, bem como ela própria divulgou a fé em Jesus Cristo aos outros povos ditos pagãos.

É de se notar que muitas são as variáveis ao se pesquisar sobre, não só um período tão longínquo da História, mas, sobretudo, por não haverem muitos registros de época dos feitos dos primeiros cristãos, portanto, para este trabalho, recolhemos fontes de referências restritas que estão elencadas na seção própria.

Porém, estudar a História da Igreja é “estudar a ação do Espírito, que está acima de puras conjunturas ou de maquinações de poder. Com tantos anos de vida, a Igreja católica é testemunha disso.”[1] A História da Igreja “é vida. Vida de pessoas concretas e limitadas, mas também da riqueza do Espírito manifestando-se na beleza das pessoas.”[2] No entanto este trabalho é limitado, restrito, pelas limitações do autor e da própria proposta, tem apenas a intenção de dar uma rapidíssima pincelada sobre alguns fatos mais importantes de todos aqueles que nos precederam na fé em Cristo Ressuscitado.

O Conteúdo Geográfico do Império Romano

No ano 1 de nossa era, o Império Romano é que dominava grande parte do mundo até então conhecido. Os limites se estendiam por quase todo o mar Mediterrâneo, que para os romanos tinha o nome de Mare Nostrum (nosso mar), chegando até a Bretanha. “eram três milhões de quilômetros quadrados de território e uma população superior da 50 milhões de habitantes”[4].  Foram extremamente violentos com os conquistados, aniquilavam os que eram contra a sua política e forma de dominação, a pax romana não era propriamente uma paz em seu sentido pleno, era mais uma paz onde o dominador impunha sua política, e os dominados a aceitavam.

Eram nomeados governadores para as diversas províncias e eventualmente, em algumas, o imperador nomeava um líder da própria terra dominada, ou um “conselho de anciões”, para resolverem problemas menores, e estes em conluio com o poder central, exploravam o povo, através de altos impostos, cerca de 25% da colheita eram impostos pagos aos romanos, mais a corveia que era para a alimentação dos soldados romanos e seus cavalos, além do pedágio sobre qualquer transporte de mercadorias. Os impostos que o povo pagava ao Templo equivalia a 10% da colheita, 1% para os pobres e a cada sete anos a família tinha que pagar o equivalente a um ano de trabalho para o templo. Era de fato um fardo muito pesado para o povo já tão explorado.

Neste contexto nasce Jesus de Nazaré. Nazaré é um pequenino vilarejo perdido nas terras de Israel. Ele provocará uma profunda alteração no modo de viver e de crer em Deus único. Após sua condenação e morte por volta do ano 33, a Igreja inicia-se no dia de Pentecostes.

O Anúncio do Evangelho e a Igreja.

As primeiras comunidades, obviamente, nasceram na Palestina, junto ao povo judeu, pois Jesus se coloca como o Messias prometido e tão esperado, oficialmente, a primeira comunidade cristã nasce em Jerusalém (At 2,41-42 e At 4,32). Isto provoca a ira dos lideres locais e inicia-se a perseguição aos seguidores desta nova forma de fé; os apóstolos são presos, o diácono Estevão é morto, e “depuseram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo” (At 7,58).

Em torno do ano 38 Saulo se converte ao cristianismo e se transforma no maior apóstolo da Igreja primitiva. Evangelizou desde a sua conversão até o dia de seu martírio, por volta do ano 67.

Paulo assume como missão levar o Evangelho aos gentios e vai de Jerusalém a Roma, da Igreja Judaica à Igreja Universal, e ai começa a grande caminhada. Seu grande objetivo era:

  • Desatar a Igreja nascente dos laços do judaísmo
  • Tornar a Igreja universal: o Evangelho é salvação de todos
  • A fé é que salva e não a Lei judaica
  • A verdadeira liberdade é a liberdade dos Filhos de Deus.

 

Em suas pregações, Paulo quer provar aos judeus que Jesus é o Messias das Escrituras e aos pagãos procura mostrar que o verdadeiro e único Deus é Jesus Cristo. Com sua insistência em levar a Boa Nova aos gentios, Paulo é chamado a Jerusalém para explicar suas atitudes (At 15), este encontro com os outros discípulos fica conhecido como Concílio de Jerusalém, que ocorreu por volta do ano 49; fica decido que Pedro fica responsável pela evangelização dos judeus e Paulo se responsabiliza pela evangelização dos gentios e pagãos.

Os primeiros seguidores do Evangelho eram pobres e marginalizados, que descobriram nesta nova forma de crer em Deus, que havia um plano divino para eles, Deus sempre escolheu os mais pobres e excluídos, e os feitos de Jesus, indo ao encontro e acolhendo os marginalizados da sociedade judaica, corroboravam estes preditos dos profetas. Paulo percebe esta escolha rapidamente, e compreende que esta preferência divida serve também aos incircuncisos, pois estes eram desprezados pelos judeus piedosos e até mesmo pela própria comunidade cristã. A pergunta que não queria calar era: Pode um pagão converter-se ao cristianismo sem aceitar a antiga Lei Mosaica?  Para Paulo a resposta é sim, porque para ele via importantes desdobramentos a partir desta questão que são:

  • No plano conjugal, a predileção pela mulher no mundo machista;
  • No plano educacional, a predileção pela criança num mundo de adultos;
  • No plano da produção, a predileção pelos trabalhadores num mundo de patrões exploradores;
  • No plano da saúde, a predileção pelos doentes num mundo de sadios;
  • No plano da discriminação racial, a predileção pelos não judeus num mundo de judeus;
  • No plano da política internacional, a predileção pela periferia do sistema.

Com esta visão Paulo insiste que a salvação era para todos, circuncidados ou não, homens e mulheres, livres e escravos (cfe. Gl 3,28). Com efeito, os pagãos eram minoria no começo da Igreja, mas graças a Paulo, eles levaram o cristianismo ao mundo, enquanto a contribuição judaica teve pouca repercussão no crescimento da Igreja, talvez, se não fosse por Paulo, o cristianismo se limitaria a apenas uma seita dentro do judaísmo.

 

A Igreja e a evangelização dos povos

A evangelização expandiu-se rapidamente, até o Século II pode se encontrar cristãos no entorno do Mar Mediterrâneo, se olharmos com atenção um mapa da época com as Igrejas, vamos perceber que elas.

“Estão dispostas como um colar de pérolas ao longo da costa, de porto em                                   porto, de Azoto a Antioquia, passando por Jope, Sebaste, Cesaréia da                                         Palestina, Ptlomaida, Tiro e Sidônia… Na virada do Século I, a    Igreja toma seu                       segundo fôlego. Penetra no interior das t erras na Síria e na Ásia Menor.”                     (Hamman, 1997)

As principais causas da rápida expansão do cristianismo foram:

  • A atividade apostólica e missionária dos apóstolos;
  • A situação do povo pobre, que via no Cristianismo uma esperança;
  • Os peregrinos, os comerciantes, os viajantes que levavam e espalhavam pelo mundo a notícia do novo tipo de comunidade que havia surgido;
  • Com a destruição de Jerusalém no ano 70 D.C. os judeus foram obrigados a se espalhar pelo mundo (diáspora). Muitos deles já conheciam os fundamentos do cristianismo e começaram a formar comunidades aonde chegavam;
  • As comunidades iniciadas por Paulo;
  • A organização do Império Romano: estradas, cidades, províncias e dioceses que, na Igreja deram origem às capelas, paróquias e dioceses;
  • A originalidade do cristianismo, enquanto religião viva, fundada sobre a pessoa de Jesus Cristo e na Crença num só Deus, onde se procurava viver a igualdade entre as pessoas;
  • Diante da decadência ético-moral, havia o desejo de voltar à virtude e ao respeito e à vivência dos verdadeiros valores humanos; justamente o que o Evangelho propunha;
  • O respeito à dignidade da mulher, das crianças, dos pobres e doentes.[5]

Com esta rápida difusão do cristianismo, os cristãos começaram a ser perseguido pelo Império Romano, especialmente no período de Nero, mas outros imperadores também condenam os cristãos, tais como Domiciano, Trajano, os Severos foram os mais hostis, Caracala foi cruel, Heliogábalo, Décio, Valeriano, Diocleciano. Inúmeros foram os mártires, e as crueldades contra os cristãos perduram até o ano 313, embora existam períodos de relativa calmaria. Muitos são os mártires, mas muitos são os apostatas, que por não terem a fé tão firme a negavam para salvar suas próprias vidas.

Mas nem mesmo com as terríveis perseguições e acusações os cristãos esmorecem, Tertuliano vai dizer que “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, isto mostra a força e a penetração do Evangelho junto aos povos do Império Romano.  Embora dentro da própria igreja comecem a surgir as heresias, e foram várias nos primeiros séculos, as mais destacadas foram o Arianismo, o Gnosticismo e o Monofisismo, o primeiro defendia que Jesus Cristo não era Deus, ou Filho de Deus, era apenas uma criatura privilegiada entre todas as outras, desta heresia surgiram outras tantas variantes. O Gnosticismo “é uma ciência religiosa, um modo de conhecimento superior” adquirido por “um conhecimento direto, instintivo, total, beatificante dos angustiantes problemas da metafísica”. Já o monofisismo ensinava que em Jesus Cristo só há a natureza divina, ou seja ele não teria a natureza humana também. Esta heresia foi derrubada no 4º Concílio Ecumênico na cidade de Calcedônia.

O ano de 313 é decisivo para a Igreja, é neste ano que o Imperador Constantino proclama o Edito de Milão (ou da Tolerância), que concede aos cristãos igualdade de direitos com as outras religiões. A partir daqui a Igreja recebe privilégios tais como:

  • Construção de igrejas (Nicomédia, Antioquia, Jerusalém (a igreja do Santo Sepulcro), Belém (a igreja da Natividade), Roma (basílica do Latrão e outras);
  • A dispensa dos impostos e da prestação dos serviços públicos para os clérigos;
  • A equiparação dos bispos com altos funcionários;
  • A doação de propriedades de terras;
  • Em 321 é introduzido o domingo cristão.[6]

Com a Igreja recebendo as benesses do Império, tudo fica mais fácil, e a difusão do Evangelho se faz mais presente, mas mesmo assim ela continua a sofre internamente com as heresias, então surgem os padres apologetas, que usando de sua inteligência e intelectualidade combatem as heresias e as dúvidas que surgiam tanto interna como   externamente à Igreja. Mesmo assim ela cresce e se espalha, se tornará mais forte ainda após o ano de 391 quando o imperador Teodósio proíbe todo culto pagão, na verdade ele torna o cristianismo a religião oficial do Império, e com isso, haverá muitos batizados, mas poucas conversões de fato, muitos destes “novos cristãos” apenas aceitam o batismo para agradarem ao imperador ou não serem, agora, perseguidos. Com isso a Igreja vai se enriquecendo e se afastando dos princípios básicos do cristianismo, que era a fraternidade, a partilha, a vida em comunidade, acolhimento ao pobre e excluído. Muitos bispos começam a enriquecer.

Deste distanciamento surgem os que querem viver a “simplicidade e a pobreza evangélicas”, são os chamados monges, os primeiros foram os anacoretas ou eremitas, que “iam para o deserto viver sozinhos, rezar, meditar e fazer penitência”.  Em torno dos anos 400 eles começam a se organizar e vivem em pequenos grupos. O próprio São Jerônimo viveu durante 20 anos numa caverna.

O fim do Império Romano do Ocidente

Entre os anos de 410 e 476 o Império Romano agoniza, as legiões romanas já não conseguem deter o avanço dos bárbaros e vão perdendo territórios inteiros para os godos, os alanos, os vândalos, suevos, burgúndios, mas quem estava conquistando mais territórios eram os hunos, este após serem derrotados nos “campos catalâunicos”  regressam à Hungria, mas no ano 452 chegam a Roma, o Papa Leão vai ao encontro de Átila e consegue que este não invada Roma, porém no ano de 476, o último imperador romano, Rômulo Augústulo é derrotado pelo germano Odroaco , isto representa o fim do Império Romano do Ocidente. Mas não o fim da Igreja, pois muitos dos povos ditos “bárbaros já conheciam o cristianismo e tinham grande respeito pelos bispos”. Na verdade, após toda confusão que se criou com a queda do império, quem ajudou a reorganizar a vida do povo foi a Igreja já fortemente estabelecida, a partir de então ela fica mais poderosa ainda, sendo praticamente o único poder constituído, só deixando pouco a pouco o poder tempos mais tarde.

Conclusão

Ao olharmos o nascimento da Igreja, desta distância, vemos os altos e baixos, por certo mais altos do que baixos, poderíamos ter um olhar de muitas críticas, mas é preciso contextualizar este período de cinco séculos que foram decisivos para a Igreja e para o cristianismo. Não fosse o testemunho dos apóstolos, especialmente de Paulo de Tarso, não fosse a fé que gera a esperança dos mártires, não fosse a inteligência dos padres apologetas, não fosse a ação do Espírito Santo nos Padres Patrísticos, a Igreja e o Evangelho não teriam chegado até nós atravessando vinte e um séculos de revesses e benesses, não teríamos tomado conhecimento da Economia da Salvação. Temos uma dívida impagável para com estas irmãs e estes irmãos que nos precederam e nos transmitiram a fé, e muitos deles pagaram com a própria vida, com o próprio sangue, para que o Evangelho chegasse até nós.

Gamaliel profetizou, mesmo não tendo ciência disto, que a Igreja prosperaria, se viesse de Deus (cfe  At 5,39), e assim se concretizou sua profecia, a Igreja é de Deus, por isso não sucumbiu aos homens, nem mesmo àqueles que são responsáveis por ela, e por interesses outros não a respeitaram como deveria ser respeitada.

A Igreja seguirá seu percurso como barca no mar, ora revolto, ora calmo, mas temos certeza que atingirá seu porto seguro no fim dos tempos.

REFERÊNCIAS

 

Bíblia de Jerusalém. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. São Paulo: Paulus, 2002.

Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude.  História da Igreja I – Desde as Primeiras Comunidades. São Paulo : CCJ Gráfica e Editóra, 1995.

Fröhlich, Roland. Curso Básico de História da Igreja. 7ª. São Paulo : Paulus, 2010.

Hamman, Adalbert-G.  A Vida Cotidiana dos Primeiros Cristãos (95 – 197). São Paulo : Paulus, 1997.

Pierrard, Pierre. História da Igreja. 7ª. São Paulo: Paulus, 1982.

História Eclesiática – Eusébio de Cesáreia. 2ª. São Paulo: Paulus,2008.

 

Mapa da página 2 Disponível  em <http://estudarabibliaevida.blogspot.com.br/2011/01/contexto-biblico-historico-e-geografico.html>   acesso em 08/10/2012

[1] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pg 4

[2] Idem

[3] Disponível em < http://estudarabibliaevida.blogspot.com.br/2011/01/contexto-biblico-historico-e-geografico.html>   acesso em 08/10/2012

[4] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pg. 10

[5] (Equipe do Instituto de Pastoral da Juventude – Porto Alegre, 1995)Pgs 16/17

[6] (Fröhlich, 2010) pg 32

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