Resenha do Livro Mistagogia Hoje: o resgate da experiência mistagógica dos primeiros séculos da Igreja para a evangelização e catequese atuais de autoria de Rosemary Fernandes da Costa. São Paulo: Paulus, 2014.

Introdução

 

O livro nasce de uma principal inquietação da autora que pode ser resumida em: como falar de Deus aos homens e mulheres dos dias atuais para que compreendam a Revelação e como isso pode influenciar em suas vidas. Ela encontra a resposta na “experiência de evangelização dos primeiros séculos da Igreja nascente”, mais especificamente na “orientação dos Padres da Igreja” que é a Mistagogia, ou seja: a pedagogia do Mistério.

Análise, contexto, experiência, prática.

Para a autora é na catequese mistagógica que se encontra “uma fonte fecunda da Igreja para a ação evangelizadora de todos os tempos”.  Com isso ela sugere pistas para impulsionar respostas pastorais-pedagógicas e renovar o serviço da evangelização, que é a tarefa da Igreja.

Na elaboração do texto do livro vai sendo traçado uma linha que se inicia com a análise da evangelização nos dias de hoje (capítulo I) onde se detecta os principais problemas para a transmissão da fé no mundo atual; porém não se apoia apenas nos documentos da Igreja e autores atuais, ela vai mais além à busca de uma nova maneira de evangelizar a qual dá o nome de “evangelizar é a experiência ou o testemunho que cada batizado deve dar para a evangelização”, e vai buscar nas palavras do Papa Francisco uma forte exortação a todos quando ele diz: “ evangelizar é a missão da Igreja e não apenas de alguns, mas a minha, a sua, a nossa missão” (p. 23). Assim fica sinalizado a importância da evangelização como obrigação, mais, como missão de cada batizado, porém fica a pergunta: “ a fé supõe uma pedagogia própria?”.

A resposta a autora encontra na experiência catecumenal da Igreja primitiva, especificamente nos Séculos III e IV; esse é o tema do Capítulo II, onde vai se elaborando uma pedagogia da fé, que, segundo, a autora deve ser mistagógica pois ela

“instaura uma pedagogia própria e especial na        evangelização, inspirada na pedagogia divina, atuando desde o momento da                            acolhida, como durante todo o processo de acompanhamento de uma pessoa que adere à fé cristã.”

Com isso há um acompanhamento total do catecúmeno desde a iniciação à fé, passando pela sua inserção na comunidade, tendo como  grande desafio não só iniciar a pessoa na fé, mas acompanhar em toda a sua trajetória do caminhar cristão.

A partir daí a autora vai justificando a escolha de uma evangelização mistagógica, inclusive com uma pequena apresentação do histórico da Igreja nos Séculos III e IV.  O Capítulo II é o núcleo central do livro, onde o tema é mais longamente desenvolvido e explanado, tratando de tópicos com muitos detalhes, como exemplo podemos citar a apresentação que é feita de Jesus como o primeiro mistagogo. Mostra a “transformação” que o termo pedagogia vai sofrendo ao longo do tempo; comenta a história da salvação, passa pela evangelização apostólica e se encaminha para o catecumenato primitivo e sua evolução. O texto segue evoluindo até chegar a tópicos importantes como a relação entre a revelação divina e a antropologia, a espiritualidade e a ética, e, principalmente a pessoa e a comunidade de fé.

No Capítulo III a autora propõe resgatar “alguns aspectos importantes já presentes na experiência mistagógica da Igreja dos primeiros séculos que podem iluminar a evangelização atual.” Isso porque Rosemary acredita que estamos vivendo um tempo de crise da fé, que inevitavelmente enfraquece “o processo de evangelização e de transmissão da fé cristã.”

A alegação para se utilizar um método mistagógico é de que ele é capaz de “reorientar a ação evangelizadora à luz da experiência tão inspiradora da Igreja” nos Séculos III e IV, bem como esse processo se faz presente no RICA como resultado do Concílio Vaticano II.

Quando o capítulo III no item 2, que trata das “contribuições da mistagogia para a evangelização”, são elencados nove tópicos como “resgate da experiência mistagógica para a evangelização atual”. O tópico que nos parece mais importante é o que trata do “anúncio querigmático como fonte de ardor e renovação”, pois tudo o que se refere a evangelização tem seu princípio no Kerigma  e este teve seu grande impulso missionário em Pentecostes para que o testemunho da ressurreição fosse anunciado a todos indistintamente, no entanto, segundo a autora, no processo de evangelização é preciso que se permita que o espírito e a presença do Cristo Vivo inunde os corações como o fez com a Igreja primitiva. Essa comunhão com o Espírito é a fonte da força transformadora da Palavra pronunciada, para que ela não seja vazia, mas que transmita uma profunda experiência da fé cristã, e que não se caia na tentação de transformar a evangelização em repetição doutrinal, mas que seja uma “abertura para a ação do Espírito na vida pessoal e comunitária”. No entanto essa ação do Espírito deve ser sentida primeiro nos agentes de evangelização, pois é necessária uma relação íntima com o inefável, só assim se conseguirá uma evangelização eficiente.

Na sequência são elencados outros tópicos que complementam o agir mistagógico na evangelização tais como: A pedagogia do mistério, a compreensão da fé como caminho, o papel do testemunho na dinâmica mistagógica, a concepção de transmissão da fé, um encontro de liberdades, as comunidades de vida, a circularidade hermenêutica, o papel das mediações.  São tópicos que esclarecem mais detalhadamente cada etapa do processo de transmissão e manutenção da fé cristã àquele que aderiu ao seguimento de Jesus.

Conclusão

A autora deixa muito claro a missão de todo batizado: evangelizar em todo tempo e lugar independentemente  das condições e situações epocais, porém, sempre revisando esse processo de transmissão da fé. Diante dos desafios que se apresentam hoje para a evangelização, a autora propõe e insiste numa evangelização mistagógica nos moldes daquilo que a Igreja primitiva apresentava aos catecúmenos nos Séculos III e IV, “ idade de ouro” da Igreja, porém esse modelo de evangelização já está em consonância com o Concílio Vaticano II, mais especificamente com a Constituição Sacrosanctum Concilium.

Portanto o objetivo maior do livro “é fazer descobrir os sinais de Deus presentes na história e na vida, é redescobrir Deus na própria vida, na intimidade do coração.” e ainda fazer com que “o ardor da experiência pascal que aquecia o coração do grupo e os movia de dentro para fora a evangelizar. Por isso mesmo, cada discípulo tornava-se testemunha e, assim, um novo evangelizador.” Oxalá que se desse o mesmo aos catecúmenos dos dias de hoje para que eles/elas respondam ao querigma mudando de vida, iluminando a consciência, o entendimento, transformando-os “em uma nova vida, uma nova criatura”, vivenciando uma vida comunitária, fraterna e solidária. Abertos à ação do Espírito e a Graça de Deus para que cada um e cada uma realize o compromisso assumido no batismo, qual seja ser discípulo missionário de Jesus Cristo, e assim instalar o Reino aqui e agora.

REFERÊNCIAS:

COSTA, Rosemary Fernandes da. Mistagogia hoje: o resgate da experiência mistagógica dos primeiros séculos da Igreja para a evangelização e a catequese atuais. São Paulo: Paulus, 2014.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2012.

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