Celebrar a luta pela vida (A liturgia e a caminhada das comunidades)

…comungar tornou-se um perigo…

Nos Caminhos de Francisco

(17 de outubro de 2017)

Por Marcelo de Barros Souza, osb

Em todo o Brasil, já se intensificam os preparativos para o VII Encontro nacional das CEBs em Duque de Caxias (julho de 1989). Há poucos meses atrás, numa assembleia de base, no Nordeste, os grupos discutiam suas propostas para esse encontro. Vários grupos disseram, então: “Queremos que este encontro tenha um caráter marcadamente celebrativo”. O último encontro de Trindade teve esse mesmo teor, quando foi até necessário eliminar o receio de alguns que ouvindo falar de caráter celebrativo, temiam que não fosse prático e até decisivo. Realmente foi uma grande celebração, sinal eficaz da caminhada libertadora das comunidades e movimentos populares. Foi um exemplo significativo de como em toda a América Latina os cristãos celebram a luta pela vida.

O nosso povo liga de modo tão vivo sua fé com a realidade da luta pela vida, que suas rezas…

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A centralidade dos humildes da Terra: a propósito do discurso de Lula

Essa proposta do PT tem muito em comum com a Doutrina Social da Igreja, no que tange a responsabilidade dos empresários (de qualquer grandeza), o reconhecimento e justa remuneração pelo trabalho, seja no campo na cidade, braçal ou intelectual. E, obviamente, a educação igual para tod@s, independente da classe social, para que tod@s tenham as mesmas condições de crescimento e evolução como pessoa humana.

Leonardo Boff

Esta reflexão  foi motivada pelo discurso do ex-presidente Lula encerrando a abertura do 6º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores no dia 1º de junho de 2017 em Brasília. Faço-o como observador interessado no projeto social que o PT em parte realizou nos anos de seu governo. Não sou filiado ao partido, pois,  estimo que partido é sempre parte e tarefa do intelectual-pensador é tentar pensar o Todo e menos ocupar-se das partes que sempre são muitas, não raro, contraditórias. Como observador interessado que faço este comentário.

Três pontos me chamaram particularmente a atenção no discurso do ex-presidente Lula.

O primeiro deles é o caráter de classe do partido. Está no seu nome Partido do Trabalhadores. Quer dizer, propõe-se representar as grandes maiorias do país  compostas pela classe  dos trabalhadores do campo e da cidade, aqueles que dentro do sistema do capital vivem de salários (venda de sua força…

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La tolerancia necesaria y urgente

Intolerância: um mal do século, mas não só desse.

Leonardo Boff

Hoy en el mundo y también en Brasil impera mucha intolerancia frente a algunos partidos como el PT o los de base socialista y comunista. Intolerancia severa, a veces criminal, que algunas iglesias neopentecostales alimentan y propagan contra las religiones afrobrasileras, satanizándolas e incluso invadiendo y damnificando “terreiros”, como ocurrió en Bahía hace algunos años. Hay intolerancia que lleva a crímenes especialmente contra el grupo LGBT. Víctima de intolerancia es también el Papa Francisco, atacado y calumniado hasta con carteles pegados en los muros de Roma, porque se muestra misericordioso y acoge a todos, especialmente a los más marginalizados, cosa que los conservadores no están acostumbrados a ver en las figuras tradicionales de los papas.

El cristianismo de los orígenes, de la Tradición de Jesús histórico –contrariamente a la intolerancia de la Inquisición y de una visión meramente doctrinaria de la fe– era extremadamente tolerante. Jesús enseñó que debemos tolerar…

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Existe vida extra-terrestre?

Deus não pára nunca sua criação, o Universo é a sua casa.

Leonardo Boff

Cientistas da NASA descobriram uma estrela Trappist-1, distante 39 anos luz da Terra, com sete planetas rochosos, três dos quais com possibilidade de água e assim de vida. Esta descoberta recolocou a questão de eventual vida extra-terrestre. Façamos alguns reflexões sobre o tema, fundadas em nomes notáveis na área.

As ciências da Terra e os conhecimentos advindos da nova cosmologia nos habituaram a situar todas as questões no quadro da grande evolução cósmica. Tudo está em processo de gênese, condição para surgir a vida.

A vida é tida como a realidade mais complexa e misteriosa do universo. O fato é que há cerca de 3,8 bilhões de anos, num oceano ou num brejo primordial, sob a ação de tempestades inimagináveis de raios, de elementos cósmicos do próprio Sol em interação com a geoquímica da Terra, esta levou até à exaustão a complexidade das formas inanimadas. De repente, ultrapassou-se a barreira:…

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Onde está o poder hoje no mundo?

A mão invisível do mercado tem nome, aliás vários.veja alguns deles neste artigo

Leonardo Boff

Há um fato que deve preocupar todos os cidadãos do mundo: o deslocamento do poder dos Estados-nações para o lado do poder de uns poucos conglomerados financeiros que atuam a nível planetário, cujo poder é maior que qualquer Estado tomado individualmente. Estes de fato detém o poder real em todas as suas ramificações: financeira, politica, tecnológica, comercial, mediática e militar.

Este fato vem sendo estudado e acompanhado por um dos nossos melhores economistas, professor da pós-graduação de PUC-SP com larga experiência internacional: Ladislau Dowbor. Dois estudos de sua autoria resumem vasta literatura sobre o tema:”A rede do poder corporativo mundial”de 4/01/2012 (http:/www.dowbor.org/wp) e o mais recente de setembro de 2016: http://dowbor.org/2016/09/ladislau-dowbor-o-caótico-poder-dos-gigantes-financeiros-novembro-2015-16p.html//: “Governança corporativa: o caótico poder dos gigantes financeiros.”

É difícil resumir a mole de informações que se apresentam assustadoras. Dowbor sintetiza:

“O poder mundial realmente existente está em grande parte na mão de gigantes que…

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NÓS ERRAMOS: frei Betto

A autocrítica é sempre necessária, deve ser um exercício permanente para que não se cometa os mesmos enganos mais de uma vez. Tanto Frei Beto quanto Boff, acertaram na avaliação, do momento que a esquerda está passando. Esses tempos me faz lembrar o escritor George Orwel no livro Animal Farm. Triste, no mínimo.

Leonardo Boff

Reproduzo esse artigo de Frei Betto com o qual me identifico. É sincero e sabe manter o equilíbrio entre os acertos e os erros cometidos pelos governos Lula-Dilma.É uma auto-crítica necessária que deverá ser ainda feita por todo o partido do PT pois somente assim faz justiça à realidade, presta conta à população e começa a resgatar sua credibilidade abalada. Nunca fui filiado ao PT. Soube distinguir entre a causa que ele levava avante, dando centralidade aos pobres e o partido que servia de instrumento para esta causa. A mim pouco importa o partido que é sempre parte. Importou e continua a importar o destino dos esquecidos e feitos invisíveis que constituem um permanente desafio para a consciência ética .Para aqueles que se orientam pela mensagem de Jesus eles eles constituem um imperativo teológico, pois o Mestre os fez nossos juizes no termo final da história. Isso é o que…

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Poemeto a Maria de Nazaré

Uma pequenina mulher!

Tão humilde tão simples!

Tão pobre tão jovem!

Em Nazaré nasceste.

Nazaré esquecida do mundo,

Excluída por todos.

Exceto pelo Todo Poderoso,

Que dos pequeninos não esquece.

Ele lembrou-se de sua fiel serva.

Ao Anjo pede que Lhe traga a resposta.

Embora Todo Poderoso, esperou,

O que ao Anjo encomendou.

Ao ser visitada pelo angélico ser,

Recebe o projeto divino com espanto.

Embaraçada com a proposta,

Questiona ao anjo como era possível:

Ser mãe sem marido era suicídio!

Mas a Deus tudo é possível, lembra-lhe o mensageiro celestial.

Ao saber que o Espírito estaria consigo,

Ao noivo não consultou,

Ele que tivesse fé e acreditasse,

No que em sonho se revelasse.

Entrega-se plenamente, de confiança toda inteira.

Declara a resposta que todo o Céu espera,

Para alegria do Pai seu sim foi o que nos libertou.

O Sim salvador deu início à derradeira aliança,

Preparou-a para seu plano final de salvação total.

É hora de realizar Seu sonho tão sonhado.

Desde Adão caído, novo Adão é querido.

Eva da separação, agora Eva toda missão de salvação.

Ao Espírito se entrega em total sujeição.

Como terra virgem que nunca recebeu semente,

Germina a nova vida, novo Homem que será caminho da Salvação.

A filha da estéril será a mãe do Criador.

Como de seu costume, põe-se a serviço de seu Senhor.

Visita sua parenta em longínqua terra,

Ao se ver favorecida por tão nobre mulher,

Reconhece a preferida do Criador e declara: “bendita entre as mulheres”.

E assim será, pois todas as gerações a chamarão de “bem-aventurada”.

A serva humilhada deu à luz a Luz,

Que ilumina todo o Universo,

Faz arder  o Coração,

Enobrece o humilde, derruba os poderosos.

Ao coração orgulhoso mostrou o Coração Misericordioso.

Mais uma vez o Todo Poderoso mostra que se lembra da Aliança.

Que fizera aos antepassados, cumpre-a mesmo com ela rompida,

Por sua criatura que se queria criador.

Por ordem imperial vai à cidade do Pão,

É preciso ser registrada entre o povo,

Para o poder temporal ela é somente um número,

Para os que tem fé, é a escolhida.

Está próximo o evento, o rebento não pode mais esperar,

Manjedoura foi o berço sagrado,  palhas dos animais o aqueceu.

Assim foi o lugar,

Que acolheu o frágil menino que haveria de nos libertar,

Ela não se importou com tão pobre lugar.

Assim precisava ser,

Porque luxo o messias não queria ter,

Pobres pastores, gente do povo, são os primeiros a lhe venerar.

Glória a Deus, a Paz será fruto da justiça.

Justiça tão esperada, desde que o fruto proibido,

Fora mordido.

Mestres do longínquo Oriente vem lhe saudar.

Ahh!! Enganava-se o futuro discípulo ao questionar “algo de bom teria em Nazaré?”.

Pois por falta de um BOM vieram duas maravilhas,

Mãe e Filho de Nazaré vieram,

Para anunciar ao mundo uma vida plena.

Porém, velha inimiga, ronda-lhe o divino rebento.

O anjo amigo avisa,

Sagrada família foge para terra pagã.

Passado o perigo, retornam à pequenina Nazaré.

Modelo de discípula missionária,

Ele deu a vida toda por amor.

Ela se entregou inteira ao Amor.

Fez do Amor a sua vida.

Nunca esqueceu sua origem.

Nunca soube para onde o Amor a conduziria,

Só sabia que o caminho era segui-Lo,

Só sabia ao Caminho indicar.

Pede que façamos tudo o que Ele disser:

Mesmo refugiada em  terra estranha,

Mesmo com a espada a transpassá-la,

Mesmo que de coração aflito não o encontra entre os seus,

Mesmo quando o procura entre as casas Ele “indaga que é minha mãe?”.

Mesmo quando vê sangue de seu sangue vertendo do madeiro,

De pé fica, pois seu coração de fé é repleto.

Sabe que não é o fim,

Sabe da fidelidade de seu Senhor,

Sabe que algo maior virá,

Sabe da inimaginável novidade para todos,

Sabe qual o momento, pois guardara tudo no seu coração,

Sabe que é questão de tempo,

Sabe que esperança não é esperar,

Apenas três dias, nem mais nem menos,

Para a Glória se manifestar, e  todos de fé, reconhecerão o Amor do Pai.

O sepulcro não visitará, pois tem a certeza de que vazio está.

Por fim, sem ser o final,

Seu Divino Esposo novamente a encobriu,

Chega como vento impetuoso, é fogo que cobre a todos.

Novamente repleta do Espírito encoraja os aflitos seguidores,

A sair pelo mundo e, mais que levar o Amor,

Que mostrem o Amor, que vivam o Amor;

A nós pobres pecadores, se faz mãe amorosa que roga ao Filho,

Como se fosse possível,

Mais misericórdia aos aflitos derramar,

A nós só resta venerá-la com total devoção.

Nos mostra que é possível ao Amor acolher,

E ser por Ele acolhido,

Para isso basta abrir o coração,

Deixar o Amor  penetrar,

Para, como ela, evangelizar.

Amós: na sua época e nos dias de hoje.

PRÓLOGO  

 

Entre os profetas do Primeiro Testamento, Amós continua sendo um dos menos conhecidos do público cristão. É que o personagem incomoda um pouco, e sua mensagem ainda mais. Com efeito, os nove pequenos capítulos escritos com base em seus oráculos mostram-nos a imagem de um Deus que troveja, ruge e pune. Em suma, um Deus que reaviva as lembranças ruins de uma religião severa, e cuja imagem nos parece bem distante daquele Deus de ternura e de misericórdia revelado por outros profetas e, de modo particular, por Jesus de Nazaré.

 

No entanto, as palavras de Amós são dignas de atenção, justamente porque elas nos sacodem e nos obrigam a sair de nosso torpor. Amós é o primeiro de uma longa e rica linhagem de profetas que ousaram alçar a voz para denunciar o descaso de uma sociedade que acumulava riquezas à custa dos pobres. Ele também é duro quando se trata de denunciar o contra-senso de uma religião que não procura apoiar-se na prática do direito e da justiça. Seus apelos ardentes em favor do direito dos pobres encontraram notável eco nos atos e atitudes do profeta de Nazaré, pois, segundo ele, as práticas exteriores devem ser animadas pelo amor ao próximo e pela busca da justiça.

 

Atualidade de Amós

 

Se é verdade que a mensagem do profeta se dirige, em primeiro lugar, ao mundo do seu tempo, afigura-se também ela atual e significativa para as futuras gerações de fiéis.

O livro de Amós adquire, assim, um sentido sempre atual. O tema da justiça social, tão caro a esse profeta, não nos pode deixar indiferentes, quando tomamos consciência dos enormes problemas de todos quantos continuam sendo marginalizados por nossa sociedade desenvolvida e rica. Foi por causa de problemas dessa natureza que Amós se pôs a falar para o seu tempo. É por causa de problemas semelhantes que Amós continua a nos falar nos dias de hoje.

 

Deus falou: quem não profetizaria?

 

            Uma “belle époque” – mas para quem?

 

            Amós exerceu seu ministério em Israel ao tempo do rei Jeroboão II (787-747 a.C). Esse longo reinado foi um dos mais prósperos da história do reino do Norte. Após anos de enfrentamentos militares com Judá e as potencias vizinhas, Israel goza enfim de uma calma relativa. Graças ao comércio com a Arábia, a Fenícia e o mar Vermelho, e graças também as minas de ferro de Arabah, a riqueza do reino aumenta sensivelmente. As atividades têxteis e de tintura florescem. A população aumenta de forma considerável. Mas a estabilidade política e o desenvolvimento econômico do país não impedem o aparecimento de profundas tensões sociais. Assim, enquanto alguns se enriquecem muito e querem fazê-lo sempre mais, outros são praticamente condenados a ficarem cada dia mais pobres. Em plena prosperidade já se viam sinais de decadência social. Lentamente, o país desliza rumo ao abismo. A derrota é inevitável.

O livro de Amós evoca essa indiferença. Nele há palavras que se referiam aos tempos de prosperidade, palavras utilizadas por fiéis bem nutridos que dão graças a Deus pela abundância de seus bens, sem se darem conta de que ao seu lado surgia uma nova pobreza que faria ruir a “belle époque” em que viviam. Essa sociedade, caracterizada pela desigualdade, não nos soa como algo estranho. Não vivemos também nós numa grande indiferença diante da pobreza que aumenta a cada dia em nossa cidade, em nosso país?

Olhar sem enxergar a realidade é viver na ilusão. “Tudo está indo bem”, diziam os burgueses da cidade de Samaria, e assim também os de nossa época. Entre nós, restaurantes, cinemas, e shoppings estão cheios de gente…a dívida externa vai diminuindo…o governo trabalha para o bem de todos…. “tudo vai mal, e o fim está próximo! ” Esse é o grito de Amós, que se empenha em abrir os olhos dos outros, para que vejam a realidade antes que seja tarde demais…, mas quem é esse homem cuja mensagem escandaliza e perturba o país de Israel?

 

Amós – alguém semelhante a você e a mim.

 

            Sabemos muita pouca coisa sobre a vida de Amós. Nem mesmo quando nasceu ou morreu. Também ignoramos em que meio espiritual ele se desenvolveu. (Segundo alguns exegetas, Amós teria vivido num meio religioso, constituído de pessoas que se dedicavam ao culto; outros julgam que teria pertencido aos círculos dos sábios). Conhecemos apenas o nome de sua aldeia natal e da profissão que exercia. A primeira frase do seu livro nos diz que ele foi “um pastor de Técua” aldeia relativamente rica da tribo de Judá, que distava 17 quilômetros de Belém, situando-se nas colinas que margeiam o deserto de Judá. Ele mesmo nos diz que o Senhor lhe dirigiu a palavra quando se encontrava “[escondido] detrás do rebanho” (7,15). Mas ele se ocupava também da cultura de sicômoros – árvore que tem algo em comum com a figueira, e cujos frutos serviam principalmente de alimento para os rebanhos (7,14). A compra e venda de gado, bem como o cultivo do sicômoro (realizados sobretudo nas regiões do mar Morto e de Sefela), certamente o obrigavam a viajar e a manter contato com pessoas de diversas origens.

 

Amós, um profeta?

 

            Sem dúvida, Amós não é homem da cidade, e sim do campo. É alguém que conhece bem a natureza, ele é alguém que conhece a história passada e presente de Israel e dos países vizinhos. Anda bem informado acerca da situação social, política e religiosa desses povos (capítulos 1-3). Nesse aspecto, o acompanhamento atento manifestado por Amós vai além daquilo que seus contemporâneos entreviam.

Esse homem do Sul vê-se subitamente arrebatado de seu meio social: a palavra de Deus lhe é ordenada para que intervenha no reino do Norte. Em face do sacerdote do santuário de Betel, que o acusa de conspiração, Amós proclama sua inocência: “Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta…Foi o Senhor quem me tirou detrás do rebanho, e me ordenou: ” ”vá profetizar ao meu povo Israel” (7,14-15). Amós não é um profissional da profecia, assalariado, funcionário da corte ou do culto como os que havia em Judá e em Israel. Também não partiu dele a decisão de profetizar, nem por um instante. Sua atividade profética provém unicamente de uma escolha divina. Amós foi chamado a deixar suas raízes, a viver uma ruptura violenta. Será que podemos imaginar o dilaceramento interior desse homem habituado à vida tranqüila do campo, quando Deus o intima a deixar de lado sua pequena segurança, a fim de viver uma grande aventura de imprevisível desfecho? Por causa disso, ele tem de partir; não pode esquivar-se: “Ruge o leão, quem não temerá? Fala o Senhor: quem não profetizará? ” (3,8). De agora em diante, estarão lado a lado: é Deus quem fala: Amós empresta-lhe sua voz, como um eco –  Deus é o leão, Amós o leãozinho. De fato, Amós apresenta-se a todo momento como mensageiro de Deus de Israel, pois é em seu nome que ele fala e transmite o que lhe foi dito. No entanto, o profeta não é porta-voz passivo de Deus junto a Israel. Ele interpela os que o ouvem, e os exorta a levar a sério a mensagem que o Senhor lhe confiou: “escutai…” ele os faz refletir, e lamenta a situação em que vivem seus contemporâneos.

Deus chama a quem escuta sua voz. Ele chama homens e mulheres que não fazem o jogo do poder, e que, ouvem os gritos dos pobres, dos miseráveis, das vítimas de injustiças.

 

O “sim” do profeta.

 

            Amós certamente teve medo. Sua missão não era das mais fáceis, mas mesmo assim ele disse “sim”. Ser profeta é dizer “sim” a Deus, é ser sua voz, suas mãos, seus pés…é compreender que a fé não é, em primeiro lugar, a afirmação de certas verdades, mas antes um engajamento e uma ação contra tudo o que ameaça a vida. O profetismo surgiu, pois, como um grito restaurador de vida, como um clamor anunciando um mundo novo.

 

Deus “rugiu”: Quem não Temeria?

 

            Amós não é sacerdote, mas leigo. Também, não é teólogo. Ele não tem teorias acerca de Deus, mas Deus habita nele, sua palavra… E esse é um Deus engajado no mundo, na história, é um Deus que sofre em razão das ofensas feitas aos pequeninos de seu povo, é um Deus contrariado, que já não tolera essa situação. E Amós torna-se seu porta-voz. Por isso, a palavra, para ele, incomoda tanto quanto o rugido do leão (1,2; 3,4.8).

 

Deus se impacienta: Quem não se esconderia?

 

            O livro de Amós começa com uma série de oráculos dirigidos contra as nações (1-2). Tais textos – como, aliás, toda a mensagem do profeta – causam em nós forte impacto, pois deixam como que vincada em nós a impressão de um Deus severo, impiedoso, sem indulgência nem misericórdia. Mas, uma leitura mais atenta revela sobretudo um Deus que sofre por causa da injustiça.

Não é difícil imaginar esse profeta, até então desconhecido, erguendo-se no meio do povo e proferindo oráculos de maldição contra as nações. Os israelitas, reunidos para alguma festa, provavelmente em Betel ou na Samaria, ouvem-no com espanto. E então ele repete, com voz forte e retumbante, a decisão irrevogável de Deus de punir as nações (1,3-2,5), e indica a seguir o crime cometido e a sentença da condenação. Modo surpreendente de introduzir uma mensagem profética! Certamente, os ouvintes esperavam que, antes de tudo, ele apontasse o crime das nações. E falasse depois sobre o julgamento de Deus e o castigo. Mas não é o que acontece. O Senhor, desde logo, é apresentado como um juiz severo, inclemente, determinado a executar sua sentença de destruição – inapelável. Essa imagem de um Deus implacável choca nossa sensibilidade. Qual é, pois, o sentido de tal proclamação?

 

Ninguém vê seus próprios defeitos.

 

O Julgamento começa pelas nações que circundam Israel. E atinge sucessivamente Síria (Damasco) (1,3-5), Filisteia (Gaza) (1,6-8), Fenícia (Tiro) (1,9-10), Edom (1,11-12), Amon (1,13-15), Moab (2,1-3) e Judá (2,4-5). Ao todo, sete nações. Logo, qualquer nação pode ser objeto das invectivas do Senhor. Nem mesmo Judá, rival por excelência de Israel, foge à regra. Alívio, pois, para os israelitas. Podem dormir em paz! Deus, pela boca do profeta, denuncia o mal cometido pelos outros, o pecado dos vizinhos. Em suma, Israel não se sente concernido pelas ameaças e julga que sua conduta não é suscetível de nenhuma reprimenda… afinal de contas, Israel não é o povo do Senhor? Não estaria, por isso, ao abrigo de qualquer condenação?

Porém, contrariando toda expectativa e para escândalo dos israelitas, a estes agora o profeta se dirige (2,6-16). Com vigor o profeta passa a enumerar os crimes que eles cometeram, cuja gravidade ainda se torna maior por terem eles conhecido os benefícios de Deus. No total, são sete crimes. As vítimas? O justo, o necessitado, o fraco, o pobre, a mulher e, junto com eles, o próprio Senhor. Israel é, pois, condenado severamente porque despreza o mais frágil dentre seus irmãos e desrespeita o Deus que pretende honrar.

 

Um convite que vale para nossos dias.

 

            O Deus do profeta tem sentimentos. Assim como pode sentir alegria por causa dos atos humanos, também pode ficar ofendido. Ele sente pena e alegria, piedade e cólera. A cólera de Deus é profunda quando alguém toca num de seus pequenos. Amós convida-nos, portanto, a um questionamento acerca da imagem que fazemos de Deus. A imagem de um Deus distante que nada tem a ver com os sofrimentos dos seres humanos, ou a imagem de um Deus que está sempre pronto a estender a mão e a perdoar, não seriam representações de um Deus cúmplice da ordem estabelecida, que legitimaria por essa forma a opressão do mais fraco? Ao contrário, a imagem de um Deus cheio de cólera, que perde a paciência com as injustiças praticadas contra os mais carentes, não seria a de um Deus engajado nas mudanças sociais e no estabelecimento de uma sociedade mais justa? Não faz parte da vontade de Deus que os homens sejam infelizes, sofram opressão e abusos. Estaríamos nós dispostos a entrar em conexão com o sonho que Deus tem para o mundo, pondo-nos à espreita de seus desígnios em vista de um futuro onde haja esperança?

 

Quem são as vítimas da injustiça?

 

            No oráculo de maldição contra Israel (2,6-16) cinco termos diferentes são utilizados para designar a pessoa que é explorada no país: o “justo”, o “necessitado”, o “fraco”, o “pobre”, e a “mulher”. Na boca do profeta, o justo é o inocente, que sofre sem que nada o justifique; o necessitado designa principalmente uma pessoa sem defesa, sem voz e que, por isso, está à mercê dos fortes; o pobre é aquele que suporta as injustiças dignamente, e “a mulher” se reporta provavelmente à escrava ou à serva que trabalhava para as famílias ricas. A essas cinco categorias de vítimas da injustiça o livro de Amós acrescenta ainda: “aquele que sofre extorsão” (2,8) o nazir e o profeta (2,12), o homem “prudente” (5,13), o que “defende o justo no tribunal” e o que “fala a verdade” (5,10). Esses dois últimos não representam nenhum grupo social. É provável que sejam objeto de injustiças em situações específicas, por causa de seu amor pela verdade. Quando o ser humano é oprimido, o santo nome do Senhor é profanado.

 

Quem são os responsáveis pela opressão?

 

Amós denuncia toda pessoa que oprime o pobre e maltrata o indigente. Antes de mais nada, ele denuncia aqueles “que venderam o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sandálias” (2,6; 8,6)). Nessa primeira acusação, o profeta tem certamente em vista a venda de pessoas pobres como escravos, porque eles não têm como pagar suas dívidas. A seca, fenômeno natural corrente naquela região, deixava os camponeses pobres à mercê dos ricos. Esse texto talvez faça referência à venda de um filho de algum devedor insolvente. A escravidão não era proibida em Israel, e geralmente ocorria como efeito da miséria econômica. Ora, o rico não apenas vendia o pobre como o escravo por dinheiro, mas também trocava o indigente – que é menos do que o pobre – por um objeto de pouco valor, por exemplo um par de sandálias. Hoje se diria: por qualquer ninharia…, contudo, o simbolismo ligado à sandália é bem forte. No mundo antigo, só andava calçado quem tinha recurso para tal. Caminhar calçado num campo ou lançar sobre ele suas sandálias significava tomar posse dele. O calçado era, pois, o símbolo do direito de propriedade. Pisar a cabeça dos pobres equivale a reduzi-los à não existência.

Em segundo lugar, o profeta clama contra aqueles que “pisoteiam os fracos no chão e desviam os pobres do bom caminho” (2,7; 8,4). Para os ricos, que os pisam, os pobres são como o pó da terra. O ser humano foi feito da poeira do solo (Gn2,7) para em seguida Deus insuflar nele o hálito da vida, a fim de que o homem se tornasse “um ser vivo”, ou seja, uma pessoa. Ora, de acordo com Amós, a opressão exercida pelos poderosos reduz de novo o ser humano a pó. Assim tal opressão é como uma anticriação. Reduzir o indivíduo a pó é o mesmo que rebaixá-lo ao estado pré-humano, é fazer com que ele retorne ao estado de não-pessoa.

A expressão “desviar os pobres do bom caminho” pode exprimir a influência perniciosa dos poderosos, mediante o recurso a atos judiciários intentados contra os pobres, as pessoas influentes desviam o caminho da justiça a fim de defender seus próprios interesses.

Em terceiro lugar, são mencionados todos aqueles que “se deitam sobre roupas penhoradas” e que bebem “o vinho de juros” (2,8). Segundo Êxodo 22,25-26, quem toma o manto de um pobre em penhor deve devolvê-lo. Amós propõe um novo ideal ético: que nenhuma veste seja tomada em penhor. A veste é, antes de mais nada, a última proteção da pessoa – dom de Deus, da mesma forma que o pão. O profeta não pode, pois, tolerar que os ricos se apropriem dos mantos tomados em penhor, nem que bebam o vinho que extorquiram a outrem. Convém não esquecer que, para aquela sociedade, o manto representava a própria pessoa, e que a nudez simbolizava o despojamento total, se não a morte. Após terem pisado os indigentes, reduzindo-os a pó, os poderosos ainda se apropriam do pouco que restou aos indigentes, deitando-se em seus mantos. Esse gesto é ainda mais abominável por ser levado a cabo na casa de Deus, associando-se assim impiedade e injustiça! Os poderosos não só tendem a dissimular o crime, mas também a justificá-lo e até mesmo a celebrá-lo!

Mas quem são essas pessoas que oprimem os pequenos?

  • Os comerciantes que auferem altos lucros em detrimento dos pobres (8,4-6)
  • Os juízes que se tornaram responsáveis pela perversão do direito em Israel (5,7.10-1-13)
  • As mulheres ricas, que só pensam em gozar a vida, aproveitando-se de todos os prazeres (4,1-3)
  • Os políticos, verdadeiros funcionários do Estado, que vivem despreocupados por causa da segurança econômica e militar de que gozam (6,1-7).
  • O clero local, que reagia às palavras do profeta por meio de seu chefe, o sacerdote Amasias (7,10-17). Fazendo o jogo do poder, o sacerdote Amasias manda dizer ao rei que Amós conspira contra ele. O profeta não havia denunciado implacavelmente a exploração dos fracos erigida em seu sistema?

Para Amós, a presença de Deus não é incondicional. Ela depende do grau de observância da justiça, por parte do povo de Deus, nos negócios públicos ou privados. O destino de Israel será definido em função de sua atitude em face ao direito, e não em função da escolha feita por Deus.

 

Deus vira o rosto: quem não se lamentaria?

            Naquele tempo, todos os santuários se transformaram em pontos de apoio para a autoridade política e econômica que explorava os pequenos. Amós se revolta contra um culto limitado a formas puramente exteriores, e em nome de Deus clama (5,21-24). O culto dissimulava a injustiça.

Os israelitas praticam o culto a fim de obter a benevolência do Senhor, evitando assim modificar o comportamento que tem em relação aos outros. Trate-se de um embuste, de um tipo de suborno, exatamente como se acostumaram a fazer os juízes. Nota-se o contraste:de um lado, “suas” festas, “suas” assembléias, “seus” sacrifícios; de outro, expressões tais como “eu detesto…, rejeito…não posso nem ouvir…, nada há que me agrade…, afasto o rosto” Amós não tolera a hipocrisia de um culto desmentido cotidianamente na prática. Tal culto é um insulto a Deus de Israel. A verdadeira aliança com Deus deve traduzir-se em atos – o culto do Senhor dissociado de um comportamento justo corresponde a uma blasfêmia que induz os fiéis ao erro.

 

O “talvez” de Deus.

            O livro de Amós só tem um oráculo de felicidade (9,11 – 15). Após oito capítulos anunciando um julgamento de morte, eles representam uma total reviravolta na situação: o Senhor perdoará seu povo e lhe devolverá todos os bens de que o privou por causa de sua cólera. Contundo, esse oráculo alerta que se a salvação depende de Deus, o Senhor não pode impô-la. É preciso que a ação de Deus vá ao encontro da ação dos humanos. Aliás, nesses oráculos de salvação há sete outros verbos para assinalar a ação humana: “conquistar”, “construir”, “morar     , “plantar”, “beber”, “cultivar” e “comer”. O senhor constrói a cidade reduzida a ruínas (9,11), e os israelitas reedificam as cidades devastadas (9,14); os israelitas plantam as vinhas e cultivam os pomares (9,14), e o Senhor os “planta” em sua terra (9,15). O diálogo entre Deus e seu povo é perfeito, a harmonia está restabelecida.

Para certos exegetas, essa conclusão positiva, assim como certas expressões que deixam entrever uma possível saída, não fazem parte da mensagem original do profeta. Seriam acréscimos tardios para expressar a convicção da comunidade de Israel de que Deus não quer exterminar seu povo. Esses complementos ao texto demonstrariam assim que os escritos proféticos eram considerados obras abertas que valiam não apenas para o presente, mas também para o futuro.

 

Conclusão

            Em sua prática tradicional, as Igrejas sempre se interessaram pelos pobres. A esse respeito, elas estão cheias de boa vontade. Os que “têm”, dizem elas, devem ajudar os que “não têm” a libertar-se de sua pobreza. Mas essa noção de auxílio e de paternalismo históricos apenas serve para manter os pobres no nível de dependência em que se encontram. Ela não contribui para libertar o pobre, pois não valoriza o seu potencial. O pobre também tem cultura, capacidade de trabalhar, de organizar-se, de autodeterminar-se. Falando em nome de Deus, Amós rejeita essa “religião-álibi” que não apenas retira dos pobres o seu papel e sua hegemonia, mas que até mesmo busca justificar a exploração dos pequenos. Um culto assim constitui grave ilusão. Vem a ser o mesmo que zombar de Deus, visto que não é possível prestar-lhe culto calcando aos pés o direito. O profeta modifica a ordem das prioridades: o mais importante não é o culto, mas a justiça! Essa mensagem do profeta nos diz respeito ainda hoje. Continuamos a freqüentar as Igrejas, a participar das festas do calendário litúrgico, a rezar, a cantar, a depor nossas oferendas sobre o altar, a ler a Bíblia, continuamos a batizar nossos filhos, a levá-los para fazer a primeira comunhão, a celebrar casamentos e funerais na igreja. Mas se Amós vivesse entre nós o que diria ele de nossas práticas religiosas? Não pensaria ele que, assim como se dera no século VII AC, nossas igrejas transformaram a Boa Nova em moralismo opressor e em ideologia religiosa? E que nossa maneira de viver em Igreja, o mais das vezes, dissimula as injustiças? E que ela mantém o status quo, ocultando a gravidade da situação? Nossa “religião” tem mais a ver com a continuidade de uma tradição ou com uma verdadeira conversão do coração? Continuamos a fazer isso e aquilo porque nossos pais e nossa família assim o fizeram, ou porque a palavra de Deus está em nós?

Nos últimos decênios, falou-se muito da presença cristã no mundo. Alguns grupos – como os do cristianismo social, político, das teologias da libertação- deram maior ênfase à vocação política e econômica dos cristãos, chamados a tornarem-se instrumentos da transformação social. Estamos entre aqueles que não vêem nenhuma relação entre evangelização e justiça social? Somos daqueles que dissociam o espiritual e o temporal? Temos consciência de que a justiça é parte integrante da vocação de cada cristão?

Quanto a mim, estou pronto a ouvir minha irmã e meu irmão, a abrir os olhos para ver com clareza o que ocorre à minha volta, a ser livre diante da idéia do ter, a caminhar junto com os outros, a dizer algo em seu favor e a agir em consequência? Estou pronto a abandonar meu conforto miúdo para lançar-me numa aventura com Deus, sabendo de antemão que o percurso será difícil? Estou pronto a tornar-me, também eu, uma pessoa que é deixada de lado? …segundo a tradição, nenhum dos profetas de Israel terminou seus dias em casa confortavelmente; todos foram incompreendidos, rejeitados e maltratados. Posto que a palavra dos profetas incomoda, tenta-se reduzi-los ao silencio. Estou pronto a chegar até esse ponto?

O Papa Francisco na missa de encerramento da JMJ 2016 na Cracóvia, incitou aos jovens a não serem cristãos de sofá, ou seja: não ficarem no conforto de seus lares, mas sair, ir em busca do necessitado, daqueles e daquelas que vivem nas “periferias existenciais”.

 

Eu responderia que até certo ponto sim, uma vez que meus trabalhos pastorais estão voltados para os pobres, (Pastoral da Pessoa Idosa e Pastoral da Criança) para os necessitados, para os que não tem informação, para os que são explorados pelos postos de saúde quando não são adequadamente atendidos, pelas gestantes que não sabem seus direitos, pelas crianças que não têm vaga em creche, e impedem as mães de trabalharem fora de casa, pelos idosos explorados e abandonados pelos próprios familiares, e outros tantos problemas que nosso povo enfrenta, mas mesmo assim, meu “sim” é parcial…é como São Francisco disse em seu leito de morte ao Irmão Leão: “adiantemos, Frei Leão, adiantemos, pois até agora nada fizemos.”

 

Por que gostei do profeta Amós?

 

…será que por tudo o que li e escrevi acima, ainda preciso disser porque gostei dele???

 

 

 

 

Referência:

SILVA, Aldina da – Amós, Um Profeta Politicamente Incorreto. Paulinas 2001 (coleção Bíblia na mão do povo)

Como enfrentar o fundamentalismo

Leonardo Boff dispensa apresentações. Neste artigo fica muito claro como o relativismo pode ser usado de forma positiva.

Leonardo Boff

Atualmente em todo mundo, se verifica um aumento crescente do conservadorismo e de fenômenos fundamentalistas que se expressam pela homofobia, xenofobia, anti-feminismo, racismo e toda sorte de discriminações.

O fundamentalista está convencido de que a sua verdade é a única e que todos os demais ou são desviantes ou fora da verdade. Isso é recorrente nos programas televisivos das várias igrejas pentecostais, incluindo setores da Igreja Católica. Mas também no pensamento único de setores politicos. Pensam que só a verdade tem direito, a deles. O erro deve ser combatido. Eis a origem dos conflitos religosos e politicos. O fascimo começa com esse modo fechado de ver as coisas.

Como vamos enfrentar esse tipo de radicalismo? Além de muitas outras formas, creio que uma delas consiste no resgate do conceito bom do relativismo, palavra que muitos nem querem ouvir. Mas nele há muita verdade.

Ele deve ser pensado em duas direções:…

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Encontro Arendt 2016

Hannah Arendt - Brasil

por Thiago Dias da Silva

Participei há alguns dias da décima edição do “Encontro Arendt”, que este ano aconteceu em Goiânia, conjuntamente com o VI Colóquio Pensamento Político Contemporâneo. O evento contou com um número maior de participantes, permitindo aos habituais participantes dos dois eventos um panorama mais amplo do trabalho acadêmico sobre Hannah Arendt produzido em departamentos de filosofia na América Latina. A organização foi levada a cabo pelos professores Adriano Correia, Adriana Delbó, Carmelita Felício e por uma competente equipe de simpáticos alunos da UFG. O tema escolhido foi “a dignidade da política em tempos sombrios”.

A mesa de abertura ficou a cargo do professor Eduardo Jardim, que trouxe uma fala a respeito de similaridades entre Arendt e Amós Oz. Servindo-se dos recentes “Judas” e “Como curar um fanático”, Jardim pôs em destaque parte do “método” de elaboração de Oz que consiste em um esforço para se aproximar…

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